CAPÍTULO 15: PARTIDO
Enterrados em Alabazzo
Adeus
A luz do fim de tarde infiltrava-se na cabana, tingindo o assoalho. Lá fora, o mar batia oco nas pedras.
Bango tremeu pelas entranhas. Um fervor crescente lhe formigava os punhos e a espinha.
—Glenda?
O corpo dela era uma linha reta no encosto; as mãos apoiadas nos joelhos, os dedos contraídos.
Ele se aproximou e afundou ao lado dela. Ela desviou, ficando de pé. O olhar ofuscou-se pelas mechas rubras. O coração dele acelerou.
—Me perdoa — suplicou, ajoelhando-se para agarrar o vestido dela.
Glenda recuou. Ele sentiu o rastro do tecido. Com as mãos estendidas, fungou um choro, curvado sobre as pernas. O cabelo negro já formava uma franja que absorveu o peso das lágrimas. O sol poente moldava a silhueta dela.
—O que ia fazer comigo depois, Bango? — a voz distante.
—Como assim, eu—
—Me matar no tapete? — ela se aproximou do homem prostrado e cutucou o peito dele —Me largar pra apodrecer?
Bango levantou. Ela manteve-se firme com aspereza no olhar.
—Me bate — se estapeando, ele ofereceu a bochecha.
Bango tirou um bisturi do moletom, fixo na curva do lábio dela. Ela deu um pulo ao ver a lâmina. Ele apoiou a ponta no antebraço e deslizou. O corte abriu branco e foi preenchido de sangue.
Glenda vidrada, assistiu Bango virar o lado do bisturi e fazê-la empunhar.
—Por favor. Faça isso. — ele cobriu com seu calor a mão dela aproximando o abdômen da ponta.
Glenda cafungou e tentou recuar. Sem sucesso. As mãos sujas exalaram um odor ferroso que misturava-se à brisa.
—Ficaremos quites. Eu mereço isso. — o suor frio lhe pingava do nariz —Por favor, Glenda. Isso vai nos fazer bem.
—Não. Sai da minha frente! — ela chutou as bolas dele.
Ele caiu atordoado.
Glenda o ergueu pelo cabelo. Bango ficou pendurado se agarrando às coxas dela. Ela mordeu o lábio inferior. A penumbra gélida começava a invadir a sala.
Então Glenda o beijou com a língua. Um beijo longo. Enquanto a boca dela ocupava a dele, uma de suas mãos escorregou pelas costas de Bango, e ele sentiu a picada fina na omoplata. O ardor líquido espalhou-se pelos ombros, o paralisando.
Ele tentou empurrá-la, mas o corpo não obedeceu. Ela o acompanhou cair no chão como chumbo. A interrogação pairava na lente dos olhos dele, enquanto a silhueta dela se movia pelo quarto, arrumando malas.
Ele apagou e deixou que a escuridão engolisse as próximas horas.
Soldado
Na manhã seguinte a luz aquosa iluminou os fios opacos de Bango. As sombras mudaram de lado. Mas não havia cheiro de café dessa vez.
Ao acordar, o antebraço dele estava enfaixado e dolorido. A faixa estava bem atada com esparadrapo. Na cabana, o silêncio. Procurou ao redor, Glenda não estava. A mala dela também não.
Ele levantou-se e mergulhou nas miçangas. As conchas penduradas na passagem soaram ao vento, fatiando a luz. “Ir pra Alabazzo?…” – se questionou.
Sentou-se à beira da cama dela, tateando o edredom macio. O quarto rasgado por janelas que davam para o azul do céu e o mar escuro – uma cúpula de vidro.
Bango sentiu uma presença e virou.
—Glenda? — evidenciou a língua de trapo.
—Oi, Bonitão. — Jin estava escorado no batente.
—Pelo visto estão se dando bem, hein?
Bango engoliu a secura do lábio. Doliver vestia um jaleco amassado e fedia a cerveja. A barba estava encardida; o cabelo louro rareava, desgrenhado.
Ele não respondeu. “Que nojo” — ficou avaliando as pegadas de barro que Jin deixou.
—Bem, se está procurando sua garota… Sinto dizer, mas… — o anarquista coçou a barba com as unhas sujas.
—Ela partiu há duas horas.
Jin subiu a manga e verificou o relógio dourado no pulso. O ponteiro reluziu cinco da manhã.
—E você? Partirá que horas?
Bango levantou-se e ficou cara a cara com Jin que agora estava corpulento e seboso.
—Que dia é hoje? — perguntou Bango, indo até a sala para vestir o macacão vermelho.
—Bom garoto… — Jin ficou escorado na parede de braços e pernas cruzados.
—Segunda-feira.
Jin espremia os olhos arroxeados a cada soluço.
—Sabe, Bango. Sempre te achei um bom negócio. — Jin desfilou e sentou na poltrona de couro, tirando os sapatos moccasin para massagear os calcanhares.
Bango tapou o nariz, desviando o rosto.
—Ora, não me venha com frescura. Somos homens. E sabemos que seus crimes fedem mais. — Jin ofereceu a palma, como quem pede um aperto de mão.
Vitória
Bango manteve a postura servil.
—Não era na terça?
—Sim. Mas as coisas andam acaloradas em Alabazzo. É agora ou nunca, meu caro.
Jin segurou um arroto com a mão. Bango manteve o nariz franzido.
—Sei…
—Sabe nada. Alparróis… Ca-iu. — Jin fez um sinal de avião caindo enquanto assobiava.
—Tem cerveja na geladeira?
—Não. — os olhos de Bango se esbugalharam.
Doliver foi até a cozinha caçar algo bebível.
“Se o pai caiu, como será que Leo tá?”. Bango começou a chacoalhar uma perna, quando sentou na poltrona.
—Bem, e então… Você vai lá na torre pra um treinamento sofisticado hoje, claro; como tudo o que eu proponho. — Jin estufou o peito ao encontrar uma garrafa de rum.
—Sim, sim… Bem, sim. — sorriu
—Não temos tanto tempo agora, mas vai servir pra te orientar. — espanou Bango.
—Vai ter direito a armamento e ao que é necessário pra um homem de guerra.
Jin se aproximou dele.
—Você é meu soldado agora, Sr. Alameda.
—Claro que sou. — Bango tentou encará-lo, mas não durou muito. Apressou-se até o banheiro para escovar os dentes.
—Então. O plano será esclarecido melhor lá pelo meu assistente Holp.
—Seu assistente, é? — cheio de pasta na boca, Bango colocou a cara na porta.
—Enfim. — Jin pigarreou.
—No mais, Alparróis está perto de ser capturado e tá foragido. Quem vai capturá-lo é você. Eu preciso estar na casa branca esse domingo pra tomar o poder.
Bango engasgou com a água da torneira e escarrando, teve um acesso de tosse. Jin correu até o banheiro e esfregou a mão no ombro de Bango. Ele esquivou de súbito.
—Tá tudo bem? — Jin analisava a reação de olhos estreitos.
—Sim, sim! Estou bem.
—Sei… — Jin o encarou por um segundo.
Bango deu as costas e foi lavar a boca.
—Será que você me dá espaço pra tomar banho? — perguntou.
—Claro, claro. Vou terminar essa garrafa aqui. — Jin sugou o gargalo do rum com estalos e foi para a antessala.
Bango fez uma careta. Despiu-se do macacão e se deitou na banheira. A água estava gelada, mas ele ignorou os espasmos do corpo; pontadas que subiram aos ossos. A mente dele era um lapso branco.
Depois de meia hora, a porta do banheiro rangeu e Jin entrou cambaleando.
—A mocinha vai demorar muito? Precisamos sair já… — as palavras emboladas.
Bango se levantou nu. Os músculos contraídos. Jin assustou-se ao ver sua nudez e num pulo, bateu a porta em retirada.
Ele deixou escapar uma risada sincera.
Vestiu-se. Pegou a bagagem – uma mala preta e robusta – e arrastou até o carro de Jin. O Toyota SW4 preto luminoso contrastava com o barro empapado nos pneus.
Jin tentava abrir a porta do motorista, tombando para o lado.
—Tem certeza que consegue dirigir? — perguntou Bango.







Agora fica um quê de tensão e incerteza brutal, por favor, continue. O ambiente, a atmosfera que pode se seguir é inquientante! (Mais uma mensão as mscss q vc coloca sempre muito bem selecionadas)
Esse trecho me deixou com uma sensação estranha no corpo, como se tudo ali estivesse sempre a um passo de perder o eixo.
Tem uma tensão que não é só narrativa, é física mesmo. Os corpos não se encontram em calma, eles se atravessam em estados de excesso: culpa, desejo, violência, submissão, comando. E nada disso parece resolvido, tudo continua a pulsar mesmo quando muda de cena.
O que mais me pega é como ninguém ali parece totalmente dono do próprio gesto. O Bango especialmente vive num lugar de entrega e ruína ao mesmo tempo, como se estivesse sempre pedindo para ser atravessado por alguma coisa maior do que ele. E isso deixa tudo com uma sensação de vertigem contínua.
E ao mesmo tempo, existe uma frieza no mundo que envolve eles, como se o ambiente não julgasse nada, só seguisse. Isso cria um contraste inquietante: por dentro tudo explode, por fora tudo continua funcionando.
Fica uma sensação de desconforto bonita e pesada, como se o texto não quisesse só contar uma história, mas mostrar o que acontece quando o corpo já não acompanha mais a própria narrativa.
Bjo mariii 🌷, agora preciso ir ler o anterior 🥹