CAPÍTULO 9: ANARQUIA
Enterrados em Alabazzo
Justiceiro
—Justiceiros, né?… — a risada escapou de Bango —Uma garota tão jovem… — a lixa arranhando na garganta.
Jin recolheu as fotos e pairou sobre ele, assistindo o homem rastejar no piso com a coluna curvada.
Inclinou-se e enterrou as unhas na base do pescoço dele. A pele fria, azeda. Num solavanco, forçou o corpo contra a parede; a pulsação errática batia contra a palma do político, que envolvia a largura da garganta.
—Já estava morta quando arrombamos seu casebre... — afiou as palavras junto à lufada mentolada que atingiu o nariz quebrado.
O aroma do cigarro se misturou ao suor que pingava na ponta do nariz. O estômago dele revirou no contraste entre o frescor e o ferro.
Ele não desviou; o olhar opaco, sem um pingo de remorso desanimou Doliver. Num longo suspiro, o espatifou sentado.
Ao estatelar-se no assento, refletiu:
—Tanto esforço pra nada… — a voz se arrastava.
Alameda ergueu a cabeça, estudando as pupilas dilatadas e o arrepio que eriçava os braços de Jin.
—O que consegue comigo trancafiado? — a língua tropeçando nos dentes enquanto Bango articulava palavras.
—Te injetamos naloxona, isso vai passar. Espero que se comporte, ou pode ser bem pior pra você.
Para ele, a cadeira era uma continuação do piso, erguida junto com as paredes. O assento se erguia moldando o encosto sem nenhum parafuso.
O paciente revirou-se, os calcanhares empurraram o chão até que alcançasse o canto com menos luz da sala. Um tremor subiu pelos ombros e ele abraçou os próprios joelhos, iniciando um balanço rítmico.
—Alparróis está em queda, Bango.
A frase foi o chicote. Ele se empertigou, as veias do pescoço saltavam contra a vermelhidão.
—É Sora! — o guincho agudo escapou.
Bango se encolheu, tornando-se a pilha de osso e tremores. Suas mãos desciam frenéticas, os dedos cravando-se nas canelas. Tentava ancorar-se na própria dor.
Jin não desviou enquanto o agudo lhe arranhava os tímpanos. Manteve as mãos nos bolsos, enquanto assistia o homem se desfazer em espasmos na posição fetal.
—E vamos ajudá-lo a cair mais rápido... — a voz gélida dele nivelou, preenchendo o cômodo.
Ele deu um passo, devorando a claridade que cintilava o corpo retraído — que mergulhava o canto escuro da parede.
Da cadeira, o lábio descamado entortou um arco desprezível.
Doliver acendeu mais um cigarro — baforando o rosto dele — onde a umidade do olho era invisível.
—Uma chance em um milhão!
Bango friccionava a nuca no reboco, de um lado para o outro. O ruído pendulava palhado, mas ele mantinha-se preso a um ponto inerte do polímero, nas botas marrons de Jin.
—Mal sabe que é só a agulhinha dum palheiro bem maior — a voz lixosa.
Doliver deu as costas ao homem no chão e desfilou. Montou de frente no assento, e cruzou os braços no encosto rígido.
Os pelos dourados incendiaram-se na claridade, ele se debruçou sobre o concreto; seu baluarte.
—Quem é Magdalene Monteiro? — a ponta da caneta sulcava a folha.
—Não sei.
—Ricardo Izubeki?
—Não conheço.
—Há quanto tempo é membro do máximo escalão fascista?
—Não sou.
Jin expandiu o tórax numa inspiração profunda e consciente, retendo breve segundos. Manteve as pálpebras semicerradas e a coluna alinhada, enquanto concentrava-se no desapego da raiva que lhe pulsava a têmpora.
Expirou lento, esvaziando a tensão dos ombros, antes de retomar a caneta.
—Quem é Lídia Alameda?
Lídia
A sala dissolveu-se. Mergulhou no breu e a voz impostora foi substituída pela melodia que lhe mornou a audição.
—O que há, meu bem? Machucaram você? — o escarlate dos lábios surgia na escuridão, o canto da boca dele se repuxou aliviado.
As íris cinzentas o consumiam, o seio macio o envolvia no ninho impróprio à fragilidade infantil.
—Você é o homem da minha vida. Só você, rapazinho — o calor trouxera o amálgama de fumaça e a acidez de uva azeda.
—Não fico sozinho… — a voz suplicava.
—Oh, Ban. Não seja tolo.
A mão descia e subia, penteando as mechas que lhe grudavam a testa. O toque afastava os fios, revelando o minúsculo beiço trêmulo.
Lídia deslizou o pente de bambu pela última vez e o guardou, dando as costas.
A ausência do toque foi imediata, deixando a pele da testa de Bango exposta ao frio súbito, enquanto a silhueta dela se dissolver.
—Volta, Mama…— sob o pranto do garoto, a silhueta dela desvanecia.
O choque o trouxe de volta. A sala jazia vazia; Jin o deixara no branco que açoitava as retinas, as forçando; embora ardessem, viciadas.
Antes de entregar-se aos fantasmas, um clique metálico perfurou a calmaria. A figura franzina, envolta pelo carmim denso, avançou até ele carregando a liga dobrável prensada na axila.
Sem desviar o olhar, articulou o assento retrátil, que tilintou antes de ceder ao peso dele.
—Boa noite, Sora. — a voz vibrava locutora; um barítono aveludado.
Bango não respondeu, mas as pupilas dilataram-se, capturando os ombros se aprumarem. O reconhecimento de um nome digno lhe inflou o peito, dissipando o tremor.
—Veio me torturar?
—Não. Depende do que você considera tortura.
—Arrancar meus olhos? Minhas unhas? Uma por uma? — o rosto cortante —Vá em frente!
—Você é corajoso. exageradamente corajoso. — as lentes faiscaram a luz fria.
—O que eu ganharia te torturando?
—E o que ganha me mantendo preso?
Bango desgrudou as costas do cal e forçou as pernas a obedecerem. Arrastando-se até ocupar o assento. Manteve-se ereto, tentando preencher o espaço.
—Preso você já estava. — as palavras saltaram do velho.
Ele permaneceu imóvel, os olhos fixos no paciente. A afirmação soou sentenciada.
—O quê? Pra sua informação, sou de altíssimo escalão! — cuspiu.
O homem não se abalou. O crepitar do papel grosso iniciou-se quando deslizou pelos documentos oficiais. Ajustou o aro prateado e relatou:
—Aqui diz… Sr. Alameda, soldado exilado em março de 1990 por atentado ao pudor, homicídio qualificado e milícia.
Os dentes rangeram. Um vinco rasgou a testa.
—Adulterado! — avançava, com dedo trêmulo, apontando para cara do doutor, a unha suja quase tocou a pele pálida —Vocês são ratazanas mesmo! Não constroem nada, mas corroem tudo o que foi erguido com suor...
O doutor não recuou. Manteve-se estático, enquanto a respiração pesada dele embaçava o vidro dos óculos.
—Suor e cadáveres, eu diria — respondeu o doutor. Deslizou o polegar pela bochecha, removendo o rastro de saliva dos gritos.
Bango solavancou, dando as costas. Jogou-se ao canto da sala como animal ferido. A quina lhe bebeu o calor da testa e ele aspirou o mofo para lembrar de casa.
—Eu sou o único daqui que quer ser seu amigo, Sora. — a voz dele encontrou caminho até o ouvido dele, que chorava.
—Todos te odeiam, te querem morto... ou os dois.
O estalo dos documentos, selou o destino dele. O velho pinçava as bordas das folhas, virando-as. Percorria as linhas vidrado nos registros, caçando.
—Acho que foi demais pra você. Vou te dar um tempo, volto depois.
Bango girou o corpo, acumulando saliva para o sapato do doutor. O jato, porém, atingiu o epóxi.
O senhor grisalho já cruzara a porta. Restara a lembrança dos miúdos olhos, reduzidos a pontos indecifráveis atrás do cristal dos óculos fundo de garrafa.
O paciente desabou e permaneceu, fixo no esbranquiçado do teto. A sala era uma lâmina fria e impessoal.
Reanimado pela naloxona, focou no latejar rítmico do indicador, o sangue tentava romper o cascão. A têmpora martelava, ritmando a pulsação. Ao tentar espirrar, o chiado lancinante, forçou-o a buscar o fôlego pela boca.
—Mas fiz tudo certo… — a frase flutuou —Vão matar um homem inocente.
A dureza nas costas o mergulhava na maré morna. O ardor salobro, inundou os pulmões antes que ele protestasse.
Bango relaxou os braços, sentindo a espuma perfumada lhe subir o pescoço, a carícia o arrastava para longe dos LEDs.
O segundo jato de balde lhe açoitou o rosto, inundando o piso. O funcionário o ensaboava como se removesse gordura. Arqueou, golfando a bile amarela na limpeza. O vulto estancado o percorreu, conferia o desgaste de uma peça, antes de sacar o rádio.
—Situação XSS12.
Girou sobre os calcanhares, deixando as botas encharcarem o corredor.
O doutor retornou, mas empunhava um estojo de couro. O clique de travas ecoou quando ele montou novamente o assento e se acomodou. Sem pressa, revelou o interior da maleta; o tilintar de ampolas e agulhas se refletiu nas lentes.
Encurralado, agitou sucessivos espasmos, babando entre eles. A saliva brilhou na lona branca.
—Sora, é pro seu bem… — a voz nivelada do velho vibrou.
Deslizou uma ampola nos dedos.
—Corta essa — sibilou, os dentes rangiam ao frio da sala.
O médico suspirou e foi chamar o brutamontes, que o amarrou no assento e o afivelou na camisa de força. Forçou a engolir dois comprimidos e três gotas vermelhas.
Bango contraía, o tórax em espasmos irregulares.
—Demônios! — o grito lhe rasgou a goela.
O brutamontes atravessou a porta, a gargalhada gutural sumiu pelo corredor. O velho não alterou um músculo do rosto.
—Sora, não consigo te ajudar assim. Vai acabar se matando.
—Tomara que eu morra! — o frio lhe batia os dentes.
—Pra não trair um partido que destruiu você? — a voz do médico subiu um tom, afiada como o bisturi.
—Alparróis é o verdadeiro pai. Me deu uma vida totalmente escassa em Alabazzo.
—E como é essa vida?
Engoliu a pergunta. Desviou o olhar para a fenda na alvenaria, onde o silêncio se acumulava como pó.
A mente mergulhou no passado: o peso do coldre no quadril, os gorros acenando quando ele passava, a chave da própria porta.
—Uma vida digna — a voz ganhou corpo artificial.
—Digna? — o tom do velho era agulha.
—É surdo?! — o desaforo irrompeu, trazendo a ferroada lancinante que fez o coágulo ceder novamente, e um filete quente desenhou um rastro rápido sobre o lábio superior.
O doutor sacou o tampão e enfiou no nariz dele. Se encostando na cadeira, fez anotações durante os próximos cinco minutos.
Era ele, Bango e os fantasmas.
—Como te chamo? — rastreou o rosto do velho.
—Me chame de Holptins. Ou apenas Holp.
—Qual sua função aqui, Sr. Holp?
—Não tenho nenhuma, ninguém tem. Somos anarquistas, Sora — a afirmação não tinha o peso da hierarquia que ele conhecia.
—Vocês são cachorros loucos? — o insulto do paciente não encontrou resistência no doutor.
—Nós somos livres. Pra qualquer coisa. — Holp manteve os ombros relaxados, a postura despojada.
—Alparróis vai acabar com essa raça — o desprezo borbulhando pela respiração de Bango.
Holp não respondeu. Os dedos pinçaram o fragmento amarelado da caderneta. Estendeu o recorte de jornal, revelando um rosto barbudo que o lugar tentara enterrar.
Alparróis e a mulher foram extorquidos nesta sexta feira. Em janeiro de 1995, durante uma operação anarquista em Alabazzo, os artigos confidenciais do ditador foram vazados ao público.
Percorreu as letras garrafais do recorte.
—Desgraçados… — Bango soprou.
—E é só o começo. — a voz cirúrgica —Sabe quem foi designado para comandar Raia?
—Quem? — as pupilas dilatadas rastreando as rugas.
—Quero saber de você.
—Mas não sei de nada — recuou, as costas buscando rigidez.
—Talvez seja o único que sabe o paradeiro dele.
—Pois tá errado, Sr. Holp. Como você mesmo quis colocar — O riso rascante, morreu num engasgo —Amarrou um “exilado qualquer” na camisa de força.
Holptins sorria com satisfação de um psicanalista que vê a desgraça do avesso.
—Não disse nada disso, Sora. Apenas li seus registros oficiais.
Bango estancou. O único som na sala era o atrito metódico da ponta tintada. O velho sequer desfocou do que escrevia.
—Eu posso te levar para um lugar melhor, te ajudar… — a voz de Holp murmurada, fundindo-se ao ruído do papel —Mas só se você deixar.
A garganta do preso secou O convite pairou, colidindo com o frio e o cal, ele rastreava a mão de Holp, buscava qualquer segredo no rosto de pedra.
A feição de Eva com as chaves, fez as entranhas dele se retorcerem num ronco cavo. O doutor captou o som e retirou-se.
Os minutos dilataram-se, e ele permanecia imobilizado na lona. O calor dos anestésicos evaporou, o deixando exposto à acidez que martelava as feridas.
A realidade fragmentou-se: o chão cedeu ao terreno argiloso, onde dedos e braços roxos brotavam, se enroscando em seu calcanhar.
Holp voltou carregando a marmita e o alimentou com uma mistura pastosa de carne de boi e arroz. Ao terminar, se retirou.
Chamado 2.0
Bango pendeu a cabeça, o sono entrecortado pelo ardor que subia da garganta. A lona estancava a passagem do esôfago.
Ao despertar, o branco da sala lhe queimou as pupilas. O partidário ocupava o mesmo espaço de antes, as pernas cruzadas. O olhar dele era uma lâmina carregada de asco.
—Acordou, a bela adormecida… — sequer desviou os olhos do manuscrito encapado com o próprio nome.
—As seringas… — a voz dele saiu um chiado de fole.
—Ah, Bango. Meu caro amigo, Bango — Jin fechou o caderno num estalo surdo, se inclinando para invadir o espaço dele —Posso te chamar de Ban?
—Não. — respondeu convicto.
—Então, Banban. É que essa é a parte do seu tratamento em que você sente a dor que causou nos indigentes.
—Você me dá náuseas.
Arqueou as sobrancelhas, a diversão perpassou na vista enquanto levava os dedos ao queixo, estudando o preso como uma anomalia fascinante. Com lentidão calculada, marcou o compasso de caça até que sua sombra voltasse a engolir o rosto dele.
O crepitar das páginas foi o aviso antes do eco na voz cortante preencher a sala:
—Obedecendo às leis da natureza, eu disse — pigarreou —O homem não é escravo, pois não obedece senão… — o rodeava —Às leis inerentes à sua própria natureza, às condições mesmas pelas quais existe e que constituem todo o seu ser: ao obedecer a essas leis, ele obedece a si mesmo.
Bango cuspiu um escarro, o rosto retorcido. Tentou remexer o quadril sobre a saliência da estrutura, mas a peça de polímero lhe endurecia a bunda.
—Pode pelo menos me soltar disso? Vou vomitar — o bolo entalado na garganta.
Jin suspirou impaciente. Libertou o dente de uma das fivelas. A correia folgou, mas os punhos seguiram presos no aperto da lona.
—E, no entanto — voltou a discursar —Existe no seio dessa mesma natureza uma escravidão da qual o homem deve se libertar sob pena de renunciar à sua humanidade: é a do mundo exterior que o cerca e que se chama habitualmente de natureza exterior.
—Baboseira anarquista.
Ergueu e desceu a quina do livro na cabeça dele. O estalido no impacto contra o osso, faz o pescoço dele contrair. Bango murchou. As lágrimas transbordaram, traçando rios quentes na sujeira do rosto.
—Ah! A vida, tanto individual quanto social... — retomava a voz discursiva —...Não é outra coisa senão a continuação mais imediata da vida animal!
Inclinou-se até que o hálito roçasse a orelha dele. O sussurro era rasteiro e perfurava:
—Essa mesma vida animal, porém complicada com um elemento novo: a faculdade de pensar e de falar.
—Por que está discursando pra mim? — a voz do paciente quebrou no engasgo.
—Não estou discursando.
—E o que é isso?
—Ainda não te explicaram o que é ser humano — recuou, o olho detalhou o paciente com desdém clínico.
—Só aprendesse a ser máquina, Bango.
As palavras de Jin lhe congelaram o sangue, o estancando.








Opa, Italo! Com sempre te vejo pelos meus posts, vou te deixar aqui um feedback mesmo sem ter pedido, beleza?
Lendo como capítulo isolado, o texto sustenta uma unidade muito clara: ele é um bloco de tensão contínua centrado na degradação física e psicológica de Bango. Há uma escolha consciente de não aliviar o leitor, o que combina com o título “Anarquia”, e não como conceito político apenas, mas como desorganização interna, identitária e perceptiva do personagem.
O ponto mais forte está na *densidade sensorial*. O texto trabalha com camadas simultâneas de tato, cheiro e som de forma insistente, criando uma experiência quase claustrofóbica. Expressões como “lufada mentolada”, “ferro”, “umidade”, “mofo”, “espuma perfumada” constroem um campo perceptivo que não é decorativo, ele participa diretamente da narrativa. O corpo de Bango é o campo de batalha, e isso sustenta a imersão com consistência.
Há também um domínio sólido de *ritmo tenso*, especialmente pela alternância entre frases curtas e blocos mais descritivos. O texto não se organiza em parágrafos “respiratórios”, ele mantém o leitor em compressão. Isso é coerente com a cena de interrogatório e confinamento. Os cortes secos de fala, intercalados com descrições rápidas, criam um fluxo que se aproxima de espasmos, o que espelha o estado do personagem.
A *construção de personagens* funciona bem mesmo sem contexto prévio. Jin aparece como uma figura de controle e frieza, Doliver como presença mais física e provocativa, e Holp como uma camada mais ambígua, quase clínica. Bango, por sua vez, é construído mais por reação do que por ação, o que reforça sua posição de objeto dentro da dinâmica. Ainda assim, ele não é passivo no sentido raso, há resistência simbólica, principalmente no apego à identidade “Sora” e à ideia de pertencimento.
O trecho da memória com Lídia é particularmente eficaz. Ele introduz uma ruptura de plano que não precisa de explicação externa. A transição é fluida e mantém coerência com o estado mental do personagem. O uso de imagens mais quentes, macias e íntimas contrasta com a frieza da sala, criando um eixo emocional que dá profundidade ao capítulo.
Outro ponto consistente é o uso de *linguagem como instrumento de poder*. As falas são estratégias. Jin usa discurso filosófico como dominação, Holp usa linguagem clínica como manipulação, e Bango oscila entre negação e afirmação identitária. Isso cria uma camada interessante onde a linguagem disputa espaço com a violência física.
Como pequenas sugestões, há momentos em que a densidade imagética se acumula a ponto de reduzir a legibilidade. Em alguns trechos, a sequência de metáforas e sensações ocorre sem hierarquia clara, o que pode diluir o impacto em vez de ampliá-lo. Selecionar quais imagens realmente carregam função narrativa pode aumentar a precisão do efeito.
O controle de foco poderia ser ajustado em pontos específicos. Em certas passagens, a câmera narrativa oscila rapidamente entre microdetalhes físicos e ações mais amplas, o que pode gerar uma leve desorientação não intencional. Quando a desorientação é proposital, ela funciona, como na cena da memória. Quando não, ela pode quebrar a progressão.
A construção de Jin como vetor filosófico é interessante, mas o trecho do discurso corre o risco de se tornar mais expositivo do que integrado à ação. Há potência na ideia de usar filosofia como ferramenta de violência simbólica, mas ela ganha mais força quando está mais fundida ao gesto, menos destacada como citação.
Por fim, o capítulo é muito eficaz em manter tensão, mas oferece poucos pontos de variação interna. Mesmo dentro de uma proposta de opressão contínua, pequenas inflexões de ritmo ou microquebras poderiam ampliar ainda mais o impacto das cenas mais intensas, evitando uma linearidade na intensidade.
Barítono aveludado foi um ponto tão imersivo que tomei o personagem como meu.