CAPÍTULO 8: FÔLEGO
Enterrados em Alabazzo
Branco
A luz ardia as pálpebras e abriu os olhos de Bango. Mas o que o ancorou foi o sufoco da lona no peito. A camisa de força no ápice.
—Já acordou?
Sentado à frente, Jin cruzou as pernas. Mastigava o filtro do cigarro, cuspindo fumaça na cara dele.
—Controlamos a besta! — Jin apagou o cigarro no cinzeiro.
O paciente engoliu a fumaça e engasgou numa tosse rascante. Os globos ardiam presos à rede de nervos e sangue.
—Onde tá o Bigão? — sua voz era um lodo.
—Tá bem cuidado. Cão de sorte — Doliver estalou o beiço —Quem sabe eu fique com ele.
O anarquista levantou para afundar os dedos no trapézio dele até encontrar o osso.
Não sentiu os ombros. A mente moía o fracasso: da praia ao túnel, dos trilhos ao porão. Comandou o músculo. Nada. Um peso morto.
Um assobio trouxe o pivete da Ruger, que surgiu arrastando Bigão pela guia. O bicho tombava, sem firmeza nas patas. O moleque entregou a corda, saiu e trancou a porta. Jin afagou a cabeça do cão.
Bango petrificou. Ver o companheiro dopado, no mesmo buraco, trouxe um alívio podre. A dormência veio. A testa não latejava mais. A unha arrancada era só um vazio.
—Escute — Jin disse. — O dope é do bom. Fizemos esse só pra você. Paralisei tua carcaça pra ver o que tem aí dentro — deu dois toques na têmpora dele.
—Chama isso de tortura? — cuspiu as palavras, deliciando-se com a breve liberdade.
Jin deitou o animal e descansou o peso das botas em seu dorso. Bigão soltava um grunhido oco.
—Minha intenção não é te torturar. A menos que insista — avisou Jin, a voz mansa.
O rosto inchado pendeu para o lado, pesado. Fechou as pálpebras, ignorando a presença de Jin.
—Um homem desse tamanho e não aguenta nem uma bicadinha — o tom zombeteiro de Jin ressoava.
Com um aceno, ordenou:
—Tirem o bicho daqui — sem desviar os olhos dele.
Dois doutores arrastaram o cão para fora. O som das unhas raspando no piso até que a porta se fechasse. Permitiu que o silêncio se instalasse entre os dois. Para ele, o vazio era a tela onde um filme de seus erros repetia-se em looping.
Jin desferiu um soco, estalando o nariz dele para o lado.
Castigo
O espirro involuntário lançou gotículas escarlates no ar. O sangue desceu; o corpo dele não acusou dor. Ele tentou responder, mas só conseguiu o som borbulhante do oxigênio que vinha em goles.
—Aper... tado — conseguiu expelir a palavra anasalada.
—Você acha? — Jin encurtou a distância. —E se eu fizer... — agarrou-lhe o pescoço —...Isso? É tortura o bastante? — a pressão aumentou cortando o ar de vez.
A visão desbotou e seus dentes tremiam. Mas, entre a massa de sangue no nariz, mostrou os dentes.
—Sádico de merda... — Jin sibilou.
Solto por Jin, deixou o pescoço pender contra o peito. O cabelo caiu como um véu, sepultando o olhar turvo.
Jin andou de um lado para o outro, tentando conter a própria fúria, e saiu da sala.
O paciente adormeceu. Encarando o rastro no colo, imaginou os lábios de Glenda — um vermelho vivo, o guiando até a inconsciência.
O estrondo da porta o arrancou do sono. Com esforço, levantou o rosto, contra o peso da pressão nos coágulos que pulsavam o nariz desfigurado.
Os homens de carmim chegaram. Enquanto o careca injetava o dourado na veia dele, o magricelo desdentado preparava o cenário, fazendo tilintar o metal na mesa de instrumentos.
Sem aviso, sacou a lâmina fria, pronto para lhe raspar a cabeça.
Retiraram-se após deixarem o couro cabeludo exposto. O rapaz, porém, retornou arrastando um espelho e o posicionou diante dele. Ele fitou o próprio reflexo; o nariz quebrado e a massa disforme eram o tumor de um parasita.
A tosse seca anunciou Jin, que entrou acendendo um cigarro, num sobretudo mostarda que agrediu a visão dele.
—Como se sente hoje?
—Sede.
Jin estalou os dedos. Um ogro de barba ruiva surgiu com um balde e lançou água no rosto dele. O líquido lavou o sangue seco, mas quase o derrubou da cadeira.
O choque o arrancou do vácuo. Ele engasgou, buscando ar. O brutamontes esfregou a esponja ensaboada nas feridas e o golpeou com mais um balde. Por fora, o corpo tremia; por dentro, Bango era apenas um espectador nauseado.
—Que horas são? — balbuciou, a obsessão rompendo o torpor.
Jin consultou o relógio no pulso — seu relógio.
—Sete da manhã. Você é bem pontual para alguém tão... descuidado.
—Res... pirar — engasgou a voz fanha.
Jin tomou a coleira de couro do ombro do ruivo e a fixou no pescoço dele. Só então desafivelou a camisa de força.
Pela primeira vez em horas, o peito dele expandiu, mas o oxigênio agora passava pela garganta de couro.
Jin arrastou a cadeira até o paciente. Cruzou as pernas e acendeu outro cigarro; o aroma de canela invadiu a sala. A pressão nos seios da face dele tornou-se uma pulsação infernal que explodiu num espirro violento. O bloqueio de sangue cedeu de uma vez, sujando tudo ao redor.
—Como se sente... me punindo? — Bango forçou palavras. Tentou se erguer, mas os membros amortecidos falharam. Ele despencou da cadeira e se arrastou como um verme, até tombar de costas, encarando o teto com peito aberto.
—Sim... agora sim —suspirou, no piso gelado. Os membros largados como cordas.
—Nojento. Mas, interessante — Jin sentenciou. Pegou a pasta que lhe estenderam e o apoiou no joelho. Escrevia calmamente, os olhos alternando entre o caderninho e o corpo estirado.
—Você se importa... se eu desistir? — a voz rastejou no concreto, um sussurro —Se eu apenas ficar aqui e... morrer?
—Deplorável — Jin franziu o cenho, a caneta estagnada —Qual a sua idade, afinal? — Ele espalhou os documentos.
—Trinta, vinte e cinco, quarenta... — mostrou o documento com a foto distorcida.
—Vinte e oito — o paciente corrigiu.
—Achei que demoraria mais a abrir o bico — Jin comentou.
—Quantos... dias? — a pergunta flutuou.
—Como é tonto. — Jin abanou o caderninho com descaso —Faz quatro horas que você apagou.
—Você é... muito... esperto, não é? — arranhou a garganta, o sarcasmo com gosto de ferro.
—Prefere mesmo fazer isso deitado? — Jin abriu as hastes dos óculos e os encaixou, o enquadrando —Fale logo. Do chão, não passa.
A risada artificial de Bango borbulhou na garganta.
—Isso deve ser ótimo para você, não é? — Jin desdenhou, ajustando a lupa. Analisava cada espasmo dele, assistindo o prisioneiro se contorcer num prazer ignóbil.
—Na verdade... É um ótimo descanso, caro tecnologista — o sorriso sangrento dele se alargou.
Jin gargalhou —Admito, você tem espírito.
—E o galego? é seu amante? — desdenhou, o corpo no chão, brincando com a corrente que o prendia.
Jin calou-se. Tomou a pasta do ogro com violência e dispensou o serviço. O ar na sala pesou.
Ele sentou-se, depositando o registro diante do prisioneiro. Quatro ângulos do corpo morto de Nana. Bango encarou as fotos e a pupila alaranjada dilatou-se. O pânico mudo.









Jin caindo fácil fácil na pala do Bango ao invés de meter bronca nos questionamentos me deixou com raiva
E o galego? KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
Bixo tirando sarro até quando ele só tem segundos de tempo pra conseguir interagir.