CAPÍTULO 7: MANOBRA
ENTERRADOS EM ALABAZZO
Confins
Bango mergulhou a mão no fios louros. O embaraço raspou nos calos. O barro dissolveu-se na água corrente.
O corpo de Nana tremia, mas ela não se moveu. Bango observou: os poros arrepiando, o peito ofegante. Resgatou o pente no armário e interrompeu o fluxo.
Pôs-se a desfazer os nós. O pente rasgava os fios. Ela solavancou, mas as mãos dele a forçaram contra a banheira.
—Se eu fiquei bem, você também vai ficar, amor — a voz congelante. Prendia o queixo fino entre os dedos, alinhando o rosto à própria sombra.
—Coisas ruins acontecem, Nana — o tom trêmulo —Mas nós sempre damos um jeito. Não é mesmo? — estalou o beiço e a largou.
Nana voltou-se ao lampião no teto; encontrou o febril clarão e o bafo de Bango lhe cadenciando o cangote. Um tremor acomodava Nana no amargor da barba áspera.
—Ficaremos juntos, meu bem.
Fungou o ensopado cangote, aspirando as gotículas.
—Era o que você queria, lembra? Juntos pra sempre. Só você e eu — o sorriso escapou. Estendeu a mão para aquecer a bochecha de Nana, tentando conservar face pontuda.
Sussurrou na pequena orelha até que o último nó resistiu. A dor na unha quebrou o transe.
Lançou o pente na parede; o semblante obscurecia ofegante. Caçou o kit médico aberto na pia, tomou o retalho da gaze e envolveu o ferimento. Sem desviar de Nana, despiu-se e controlou a respiração.
Bango entrou na banheira, encaixou-se por detrás. O ventre pressionado às costas dela. Seus dedos apertaram os botões e ele a expôs como um socorrista.
—Não precisa ter medo, tá? Você é minha Nana; não deixo nada te aborrecer.
Arremessou o algodão molhado no cesto e com a esponja lhe castigou as escápulas, em volta, a água saturou-se de fluidos. Concluindo o purificar, agarrou-lhe firme, repousando a mandíbula no ombro franzino.
Nana cedeu ao calor. Era o único afeto após semanas de breu. O corpo traidor, buscava aconchego; amolecendo em seus braços. Bango estufou o tronco, mostrando os dentes.
Enxugou a menina e lhe envolveu no blusão — a relíquia azul. O novo odor engolia o antigo castigo. A deitou no sofá, afivelando coleira — presa ao móvel.
Nana deixou ele forrar os edredons com zelo. O ar com cheiro de talco lhe trouxe paz. O sono veio, enquanto Bango acariciava os fios que penderam pelo linho bege.
Seguro
Ele retirou-se à cozinha e purgou o frigobar — o sono da menina pairava nos ruídos produzidos pela eliminação dos resíduos — até que o raio solar das uma da tarde se infiltrou nos poros ressecados.
—Um glorioso sábado — admirou o nível de assepsia alcançado após toda desordem.
Amontoou os sacos cheios de trapo e os lançou no depósito do quintal. Derramou gasolina e riscou o fósforo. As chamas subiram.
Parou na cozinha para beber água com a mão na cintura — admirado — com o centro do seu mundo puro; Nana, encolhida no lençol.
Recomposto, ganhou a rua barrenta; no orelhão, os dedos impacientes discaram.
—Alô? Com quem falo? — a voz ríspida chicoteou o receptor no segundo bip.
—Sora. Já deveria ter salvo o meu número, não acha? — protestou, sarcástico.
—Protocolo — a voz indiferente.
Bango apelou, embora tenha engolido o orgulho a seco.
—Desejo minha moto de volta, encarecido Ricardo. Como espera que eu cumpra o resto da missão a pé? — o tom exigente.
—Falo com Leo e retorno com as providências — sentenciou Ricardo, antes de abandonar a linha.
—Pode retornar pra confirmar? — a pergunta morreu no bip infinito. O sol cru cozinhava seu úmido cabelo —Droga! — praguejou, cuspindo na grama velha.
Golpeou o orelhão, deixando o fone dançar pendurado pelo fio. No estrondo, Nana despertou — súbita — mas não moveu um músculo. Fez do corpo um peso morto; devorando cada sinal.
Bango retornou pelo corredor estreito de cercado que costeava a casa. A ponta do dedo deslizava no bronze fervente. Pairado na névoa tostada, alcançou o quintal.
Esquivou das cinzas até ser coberto pelo jardim de Coração Sangrento — os longos talos, suspendiam rosados corações; onde as flores eram gotas de sangue. Mas ele, ignorou a beleza natural, focando na colheita de raízes e talos alcaloides. Se retirou.
No rangente estrépito, ergueu a porta de enrolar que selava o mini galpão. Resgatou a caixa de ferramentas e desenrolou a filepa de latão, abandonando o odor cinzento lá fora. Reforçou cada saída do cofre com correntes grossas e cadeados de chumbo.
Cruzou a soleira dos fundos após acortinada as janelas e num baque, depositou a caixa de ferramentas ao lado da ilha. Ele separou os melhores talos e esmagou as raízes na cuia, extraindo o sumo para coar com o lenço, que a conta-gotas, filtrou o líquido pantanoso no recipiente.
Os olhos cintilaram; perdidos no efervescer do verdoso leite tocando os cristais de potássio. Esfregou com sabão e enluvou as mãos em látex, antes de sugar a última gota de extrato para a longa seringa azul.
No instante que se acomodava no banquinho, a buzina rasgou o breve sossego. Bango praguejou à Ricardo; teria que desfazer o labirinto de correntes. Estacionada na porta, ainda com a chave no contato — não lhe deu trégua. Bango entrou, enfiou-se no macacão jeans e sobrepôs a jaqueta de couro, amarrando bem os coturnos.
A agonia foi amansada pelo esforço das trancas, mas a visão da Yamaha DT 180 vermelha compensou. Alinhou as trancas com o zelo de quem guarda riquezas. Montou e girou a chave, ligando o motor dois tempos que despertou num estalido; o borbulhar ganhou corpo conforme acelerava, levantando a poeira trilha abaixo.
Missão
Descendo, o açoite dos galhos feriam lhe a vista, mas ele ignorou, hipnotizado pela adrenalina do resinoso frescor. Bango emergiu da vegetação com a moto gritando até o terreno ceder à praia, os pneus morderam a areia fofa e ele cortou o motor.
Guardou a chave no bolso e se aproximou da arrebentação. Chamou por Moça — a voz potente foi engolida pelas ondas — e avançou por entre as redes de pesca apodrecidas; o mar lhe devolveu sargaço.
O litoral, habitado por coqueiros bonsais — troncos retorcidos e que lutavam para brotar — revelou vielas, salobros caminhos e rochas que nunca ousaria pisar. A vasta maresia soprava e relaxando, se apoiou no oco da rocha.
Viajou no bater das ondas até que — com a mente limpa — notou imensas rachaduras raiarem o paredão. A fenda dava ao outro lado; uma parte intocada da costa.
Cruzando a garganta cavernosa, a visão se abriu no choque de luz. O farol, denunciou que Bango estava fora do mapa. Coroada por antenas de comunicação — a imponente torre; rasgava o horizonte. A cíclica ia e vinha sobre o mar.
Buscava Moça e encontrou a vigilância de uma sentinela.
—Que sorte a minha — resmungou.
Afundando na areia turva, se aproximou da luz. A fuligem — branco de listras rubras — descascando o salitre, emanava cheiro de tinta fresca.
—Que porra é essa? — Bango franziu o cenho.
O zumbido da câmera girava conforme seus movimentos.
—Desgraçados — ele projetou Jin na lente, curvou-se e caçou pedras ao redor do concreto; as arremessou até acertar. A lente musgo espatifou e os fragmentos violentaram o chão. Bango gargalhou.
Os estrondos na escadaria fizeram-no mergulhar o arbusto seco. Oculto pelos galhos, apertou — de polegar tremendo — a tampa da seringa.
Um lamento abriu o portão metálico e o miúdo rapaz; trajado à velório, emergiu inquieto, sugando o horizonte com a pálida mão grudada no coldre; de onde saltava-lhe o cabo da pistola Ruger.
O magricelo não notou a presença corcunda, mas as grandes orelhas captaram seu respirar. O segundo homem desceu — velhote e alto como vara, de barba branca — e apontou para o brilho dos estilhaços no chão.
—Alguém estourou a câmera! — O velho gritou e ambos empancaram na entrada, farejando o perímetro.
A silhueta de Bango rompeu a folhagem e o rapaz cambaleou em pânico.
—É ELE! — a voz esganiçada berrando competia com o mar. As botas derraparam antes da corrida às entranhas da torre.
O velhote travou. A agulha injetou um líquido que ramificou as veias. Paralisado e suado, o homem despencou de bruços; atingindo o degrau num estalo. O sangue ao redor da cabeça empapou.
—Nada limpo — suspirou, Bango; julgando o sangue escorrer do alvo degrau como a primeira falha. A pálpebra tremia, mas ele espremeu os olhos.
Adentrou às escadas e encostou o portão, antes que mais alguém surgisse. No térreo, com precisos enrolamentos, encontrou abrigo detrás da montanha de barris de chope. A bebida barata invadiu suas narinas, revirando lhe o estômago.
Bango cuspiu o gosto amargo no mármore preto. Imerso na sombra, pela fresta entre os barris, apresentou-se o salão: homens de fúnebres vestimentas, gesticulavam urgentes. Golpeavam as teclas de máquinas IBM’s — se amontoando sobre mesas circulares e metálicas — a fiação bruta formava um emaranhado dentro dos canos térmicos que exploravam a escadaria.
—Silêncio! Ficaram loucos?!
A temperada voz cortou a agitação e todos estancaram num susto. Bango fixou os olhos na gaze que encardia o pescoço de Jin. Os olhos febris; disciplinaram o salão.
—Está tudo sob controle, caros irmãos de Lixía. Nadore já checou a segurança, é só mais um ordinário raiano.
Atrás, um gordo rapaz de longos cabelos oleosos surgiu, assentindo mecanicamente. Tal veredito fez o pânico se dissipar e o grupo voltou a debruçar-se nas telas que com um brilho azulado engoliram seus rostos.
Jin deu as costas e, seguido pelo peso de Nadore, sumiu escada acima. O eco dos passos devolveu o frenético ritmo do ‘tec-tec’.
O tremor nas pálpebras cessou e o ódio deixara Bango lúcido; emergiu da sombra, buscando com os coturnos o silêncio do cimento.
Ele esquivou-se até alcançar a alça acrílica de um sótão no teto. Forçou, desdobrando a passagem telada de aço e se enfiou, selando o alçapão de volta.
Foi congelado pelo o baque das led’s. O quarto de latão recém lambido pelo gesso, entupia-se de câmeras em cada uma das quatro quinas.
Bango investiu na passagem estrondando o metal, mas alguém lacrou o ferrolho por baixo. Acometido pelo suor frio; ele girou o corpo, captando a voz que brotava das saídas de som.
Vazio
Arregalou a vista para o painel de vidro clareando um sistema de monitoramento. Do outro lado, homens louros e perplexos o analisavam — com ligeiras diferenças entre si — carregavam a mesma anemia e uniforme: jalecos carmins.
—Bango ou Sora, hein? Como deveria mesmo chamar o valentão?! — a ironia cortante foi amplificada por Nadore que ajustava os alto-falantes.
O ar entalou na garganta de Bango. Avaliou os rostos cinzentos, procurando pelo dono da voz entre os vultos. Arrastando-se nas paredes, procurou saídas ou brechas, mas tudo que se apresentou era contínuo, sufocante.
—Ande! Estávamos esperando você até agora, meu caro garanhão. Estamos contentes pela ilustre presença! — a risada falha de Jin foi distorcida por um chiado e Bango encarou o fundo dos seus olhos, quando os encontrou.
—Sabemos onde você mora, sabe? E o que tem feito também. Só queríamos um breve acordo, mas você… — coçou a barba loura —Não têm facilitado muito, entende? — após uma pausa, bateu com o indicador na cúpula.
—Já matou um peão e feriu a mim com a vadia da Glenda — e assobiou.
Dois guardas — camuflados como militares — trouxeram Bigão desmaiado, amarrado pelas patas.
—O seu único salvador possível sou eu, verme doente. Porque não conversamos como homens e acabamos logo com a pirraça?
O clique do microfone desligando após a sentença fez Bango colapsar; a palavra “acordo” girou se repetindo, até que ele estancou com a ardência dos pulmões e conteve o impulso de quebrar o vidro soprado.
A visão de seu único companheiro amarrado acompanhou a queda de pressão e ele vomitou o caldo azedo nos pés, antes da vista escurecer e despencá-lo no latão. A consciência o abandonava quando ouviu distante, as risadas; celebrarem sua derrota.








