CAPÍTULO 6: PORÃO
Enterrados em Alabazzo
Ordem
Um odor pútrido ardia as narinas, denunciando o que Bango tentava ignorar.
A sala vazia. A cadeira onde ela sentou o julgava.
Não tinha o que catar. Ele era o caco. Amaldiçoou o eu do reflexo e Moça por minutos a fio.
“Traiçoeira, maldita!”.
E ficou ali, naufragado na bolsa das olheiras.
Deu meia-volta e ligou a rádio no máximo. O barulho o distraiu.
Ele mancou até a banheira. A queimadura formara bolhas. Ele abriu a água quente até o limite e afundou. A água cobriu a ferida. O vapor o preenchia.
A fome roncava. Sete da noite, precisava comer.
Saiu da banheira com a água pingando dos pés, lançou jatos de cloro e detergente no piso, esfregou o carpete e o ladrilho do banheiro com a escova enquanto suor e água se misturavam nos pelos.
Uma toalha gasta foi o abraço; a gaze na coxa, uma armadura. Envolveu a perna em camadas sucessivas e resgatou do cesto de palha o macacão.
—Pai, livra-me das iniquidades — repetiu o mantra, suplicando ao reflexo.
Vestido, foi até a cozinha, o ralo frigorífico bebia o que restou. Calçou rigidez do couro e pôs-se a enxugar a casa pisando e arrastando a camisa velha.
Bango ferveu o resto do caldo claro; o aroma era a paródia de um tempo ileso, mas ele o forçou goela abaixo e largou a tigela na ilha. O torpor cedeu ao alerta.
Mancou até o porão calculando passos. Cravando a chave oxidada, forçou o ferrolho de madeira. A porta rangeu.
O bafo pútrido colonizou a boca dele com um gosto adocicado. Regurgitou, mas engoliu o caldo; o hálito doce era um velho conhecido seu em Raia.
Esvaziou o inventário da mochila no sofá: a corda, o serrote e o ácido. Vestiu as luvas de látex num estalo e distribuiu os sacos plásticos nos ombros.
Puxou as correias do respirador até a máscara morder a pele, substituindo o mormaço pelo filtro. Antes de descer as escadas sob a luz trêmula que carregava, a voz de Ricardo fustigou lhe os sentidos:
—'Livre-se logo disso ou eu mesmo venho com Leo resolver.
Puxou o ar com força; o vácuo do cartucho era a resposta.
Atingiu a terra vermelha sob o coro dos degraus. As varejeiras famintas o receberam, colidindo no visor de acrílico em ataques cegos.
—Merda! — praguejou. Atrás da máscara, era um espectro e assistia à própria ruína.
Os pelos eriçados foram o último alerta, mas ele se aproximou do rastro negro até que o amarelo revelasse o foco do desastre.
O cadáver tornara-se extensão do solo, preso ao piche formado pelo sangue que a terra vermelha bebera.
Não guardava memória de como a havia despejado. A visão? Um açoite.
Estatelada, Eva era um enigma de membros retorcidos. O pescoço quebrado e os pés comprimidos contra as costas davam-lhe a escultura fetal. Os azuis arregalados serviam de pórtico para a morte.
Bango empenhou-se em desatar o nó humano, mas as juntas dela eram como bambu. Cada tentativa a dobrava contra ele. Ela jazia vitoriosa na imobilidade, forçando-o a encarar a derrota antes de empunhar o serrote.
O ataque das moscas interrompeu o trato. Recuou e derramou o ácido até que nevasse o contorno do cadáver, criando uma fronteira na terra. Queria neutralizar a horda que escalava o couro das botas.
Enxame
O incêndio de ferroadas no calcanhar o atacava: formigas. Bango reagiu com chutes brutos, baques que puseram os besouros em fuga. Na calmaria que se seguiu
As pupilas seguiram as asas até o vão da escada de bronze. Entre as vísceras de metal adentrando o banheiro, a origem do gotejar. Pontuando o porão como um relógio quebrado.
A percepção o atingiu como um raio: o caos o fizera esquecer de alimentá-la. A figura franzina era uma extensão da cadeira carcomida, suspensa pelo caixote de ferro dourado. Bango ergueu o candeeiro com fúria contra o vulto, buscando um sinal.
O querosene clareou a jovem inerte em gangrena. A escassez esculpia as bochechas, projetando lascas de osso. A simpatia de outrora envelhecera a galope naquele buraco. Ela se tornara murcha como uma fruta esquecida ao sol.
Fios louros, um dia seda; tornaram-se feltro, fundindo-se às farpas do assento. Um trapo de cetim a vestia: o sangue seco mesclado ao ouro baço impregnados. A joia que ele deixara oxidar.
Os lábios moveram-se — polpa carnuda, mas de uma secura que ameaçava rasgar.
O lampião jogava sombras no rosto opaco.
—A... Ts... — o ruído rastejou, um fio morrendo na língua, rugosa como trapo velho. O suor pingava da testa dela.
Enxugou o suor dela com o macacão —Me desculpe, meu bem. Preciso te tirar daqui — murmurou.
Os dedos buscaram o nó na pilastra. Ao libertar o pé, o calcanhar revelou a cratera aberta; um sulco fundido pela corda.
Tomou-a nos braços; pesava como boneca de pano. Emergindo dos degraus até o banheiro, a depositou na banheira, equilibrando um bolo de frutas no peito dela; a jovem permaneceu absorta.
Antes de bater a porta, resgatou o soldador, o peso do ferro prometia solução. Bango mergulhou de volta ao porão para testar Eva descolara da lama negra. O vapor acetonado infiltrou-se nas frestas, agredindo lhe as narinas.
—Isso! — torceu com o descolar da pele borrachuda.
Ele arrastou-a para a luz. Ali, entre corpo e o soldador, ele operou — a chama azul lambia e fechava o que a serra partia — soldagem que reduziu o desastre a volumes que cabiam nos sacos.
Desova
Bango empunhou o cabo da pá com as luvas salpicadas — piche em grãos ácidos — após ensacar cada membro e cavou ali mesmo a cova. Os fardos de Eva mergulharam no escuro da cova. Ainda gastou horas na limpeza geral para concluir a purificação.
Estava feito. Mas ao alcançar a banheira se decepcionou. Sem as luvas, ofereceu água como oferenda tardia. O bolo de frutas, — caído entre os braços — símbolo de seu desmazelo. Irritou-se ao ver as unhas terrosas boiarem.
—Não, não, não!
Correu para o frigobar e extraiu a glicose. A agulha invadiu a veia do braço ossudo; ela despertou num espasmo, buscando fôlego. Emergia do afogamento no limbo. Esfarelou o bolo e iniciou a nutrição forçada. Socava os farelos e disparava a água, ignorando o espasmo do entalo.
Animalesca, agarrou pelo pulso e cravou os dentes, devorando a unha dele junto com o bolo. Ele recuou num sopapo. Apertou a ponta do dedo com a gaze do chão; o carmim quente manchou o punho.
—Mas que merda! Nana, sou eu! Sora! — suplicou, apontando para o próprio peito, desesperado —Salvei sua vida…
—Lembra?!
A mulher mastigou, frenética. As unhas enterravam-se na migalha furtada.
Enquanto deglutia, a chuva correu pelo rosto; lágrimas brotaram com a entrada forçada dos líquidos. Nana tateou o vácuo até que a porcelana gelada da banheira a paralisasse num choque. Os olhos pálidos procuravam luz que a cegueira não lhe permitia alcançar.










Eu não suportaria ver uma cena dessa, o cara tentando LITERALMENTE DESCOLAR, DESGRUDAR, a mulher (deformada como um lego) da terra seca. Por mim, só ele a desmembrando era relativamente digerível — psicologicamente dizendo.
E para minha surpresa, esse nosso protagonista gosta de uma coleção; Provavelmente, se Eva tivesse colaborado, seria amiga de quarto da tal Nana.
Acredito eu que Nana deve estar pedindo tanto pra morrer logo, pq sinceramente, o cheiro desse porão devia estar tão gostoso, assim como o caldo que ele toma a semanas (acaba com esse caldo plmdds).
uau. isso está grotesco.