CAPÍTULO 5: MARCADO
Enterrado em Alabazzo
Curvatura
O arame enferrujado enrolado no bastão devorava a madeira. Ricardo manteve o olhar fixo nele enquanto os dedos ágeis catavam um fiapo preso.
A mandíbula de Bango travou e as pupilas encolheram, presas ao cintilar do chaveiro no balcão. Ele saltou; o mármore frio bateu na palma antes do metal tilintar no bolso. O peito dele arfava, mas manteve postura.
Ricardo o contemplando, ergueu um sorriso de canto e assobiou tristemente.
—Sinceramente, Sora... — a voz mansa deslizava, fisgando os olhos de Bango —Achei que tinha mais respeito pelo escalão.
Ricardo não piscava, fazendo com que Bango desviasse o rosto para encarar os pés enlameados.
—Bem, podemos ter esta conversa logo mais, Ricardo — o cortou, forçando cortesia. —Mas, se não percebeu, estou imundo! A que modos me apresento à sua imponente presença? Me permite o luxo de um banho?
Abriu os braços, expondo a regata encardida de suor e sangue; apontou para as pernas nuas, gesticulando com deboche.
Ricardo se arrastou até ele, sustentando um sorriso que buscou as rugas. Aproximou-se, ignorando a encenação. E deixou que o brilho dos dentes se alimentassem da agitação em Bango.
—Leo sabe mais do que pensa, Sora — ele coçou a barba, o peso do bastão repousou na ombreira de couro do terno cinza —E eu também. — a voz caiu, tornando-se sussurro.
A vertigem o atingiu, o lapso fez a casa girar . Ele calculou: “Do que sabem?“. Procurou ar, mas só encontrou a podridão emanando do porão. O cheiro era o único traidor.
—Jin Doliver — soltou, recuperando autoridade —Estava com ele e lhe furei o queixo agora há pouco. Escapou, mas o rastro ainda tá fresco. Preciso encontrá-lo pra Leo; essa era minha missão, lembra? Diga a ele que estou progredindo e as pistas são sólidas.
Ricardo ergueu uma sobrancelha —Hm. É mesmo? — e avaliando os móveis, se interessou no escorredor de louças.
Alcançou a xícara de latão e serviu o resto do pretume dormido na cafeteira; o som do líquido foi insultuoso. Ele se encostou na bancada, cruzou as pernas e deixou que o silêncio e o café frio desfilassem.
“Quem toma café frio? Que nojo!” — o pensamento veio com o franzir do nariz. A repulsa subia, travando a garganta como se ele tivesse engolindo o gélido amargo.
—Você se sujou de sangue e a casa fede a defunto — pontuou a voz de Ricardo abafada pela xícara —Antes de tudo, esclareça isto para nós, Sora. Queremos seu bem, mas você não está facilitando. Sabe muito bem que a confiança mútua é o que alimenta o Grande.
Após um longo monólogo sobre a dignidade do homem servil, Ricardo fez uma pausa. Bebeu o resto do café e admirou o bastão encostado no couro do sapato engraxado.
—Foi a ordem, Sora... — murmurou —Mas não quero ter que usar isto com você. Se pudermos resolver isso pacificamente, será muito melhor.
—Estava bom? — Bango arriscou, desviando até o armário em busca de uma toalha antes que ele respondesse.
O batuque do bastão no piso queimou a espinha e Bango desviou a pergunta.
—Olha, descobri algo novo — reapareceu só de toalha; uma montanha de músculo coberta de cicatrizes, preencheu a cozinha —A Srta. Nilton estava traindo Jin — tentou soar triunfante —Eu os vi na estação. Ela estava com um sujeito magricela, leproso com um beiço nojento.
Ricardo inquietou-se. Jogou o bastão na pia para sentar na ilha e cruzar os braços. Ao deparar-se com o corpo suado, desviou o olhar para a xícara; um espetáculo cru demais.
Bango não esperou a licença. Desfilou com desdém até o banho; a presença do carrasco era só um detalhe. Ao terminar o banho, recolheu seus pertences e foi até o cesto de roupa.
O empurrão de Ricardo veio sem aviso, o agarrou pelo pescoço e forçou seus ombros a afundar na poltrona. Os roupa suja despencou ao redor dele. Bango se viu nu e desarmado.
Antes dele se impulsionar, Ricardo resgatou o bastão e lhe enfiou a farpa contra a coxa. As pontas de arame afundaram a pele úmida. Com o romper do couro Bango estancou.
O carmim escorreu em fios lentos pela perna dele, que agarrado à poltrona, sustentava o suor frio brotando dos vincos.
A nudez denunciou uma massa uniforme, cujos traços foram soterrados pela barba invasiva. O desprezo no lábio de Ricardo foi palpável quando fungou o odor de alma de rosas que Bango emanava.
—Ricardo, eu fiz um serviço! — disparou —Que ultrajante! Por favor... Eu conto tudo se tirar isso daí. Se adoeço, não resolvo nada! — fechou os olhos com as unhas cravadas no estofado.
A súplica terminou numa explosão de saliva que atingiu a fivela de Ricardo, que obedeceu batendo continência.
Uma consciência hierárquica; a ordem era extrair a resposta para as manchas de sangue. Ricardo recolheu o bastão.
Bango murchou-se no assento. Encarava a carne viva.
Ricardo retirou do bolso um mini carimbo de ferro e um maçarico. A chama azulada lambeu o metal e rubrou o ícone do partido — o crocodilo de boina.
Empurrou nos cortes de Bango. Um chiado de carne queimando zumbiu com o odor de cabelo tostado. O músculo da coxa se retorceu, mas ele não revidou. Regras.
—Você cheira a mentira, Sora. Sentimos de longe — Ricardo sentenciou, impondo-se sobre a poltrona.
—Sabe o que acontece com mentirosos? Hm, Bango? Você sabe? — a gargalhada denunciou um prazer oculto.
A visão de Bango se limitava à virilha do carrasco, onde o volume era de uma crueza exagerada. A vergonha ardeu mais que o carimbo em chamas. “Porque não me matam logo?“.
—Desculpa, Ricardo. Devia ter contado quando fui à doca — umedeceu os lábios rachados —Diga à Leo que sinto muito e que isso não vai se repetir — a voz vacilou o grave.
Buscava o tom exigido pelo partido. Ele fez uma pausa, estabilizando a respiração enquanto avaliava a nova tatuagem.
—Diga também que não preciso ser educado; já estou à frente da situação. O que tenho no porão é o corpo do indigente com quem a senhorita Eva traía Jin Doliver. Foi a partir desse inseto que consegui as informações que dividirei na próxima visita ao Bunker.
Pairou-se um vazio pulsante na sala. Ricardo bufava e o peso do partido freou o impulso de moer Bango em pedacinhos. Se dirigiu à porta; numa calma forçada. E antes de cruzar o batente, encarou Bango por cima do ombro.
—Sora. Escute bem. Se Bigão não voltar por conta própria esta noite — se virou para olhá-lo nos olhos —Vamos encontrá-lo e matá-lo à mandato de Leo. Você não vai durar muito nessa posição se continuar omitindo informações. As reuniões têm sido calorosas ultimamente, com tudo isso acontecendo.
Deixou que o desprezo transbordasse pela feição.
—Só apareça na doca com Jin e Eva. Limpe essa merda de casa ou tomamos de você também. E defenda, pelo amor de Deus, a imagem do partido! É decadente te ver assim. Está nojento. O tapete fede; livre-se disso ou eu mesmo venho resolver. Do meu jeito.
Ricardo bateu a porta com tanta força que quebrou um dos trincos, que estrondou a sala ao despencar. No silêncio que se seguiu, os ombros de Bango relaxaram e ele vidrou-se no coágulo de crocodilo.








Ricardo abaixando a bolinha do grande e poderoso Bango kkkkkkkk tremeuu