CAPÍTULO 4: ELIPSE
Enterrados em Alabazzo
A costa
Bango se deteve no sinal da pálpebra, que acomodava o pretume do olho — profundo o suficiente para fazê-lo engasgar.
—Eu… Eu — a voz enrolou —É… Você…
—Achei que não viria mais. — o véu flutuou até a areia em que sentou para meditar.
—Tava de saída.
Sem palavras, se deixou levar pela atração que o esvaziava. Afundou-se junto. O riso veio num espasmo; a máscara se partiu apenas o suficiente para expor os dentes afiados.
—Não acredito! — exclamou, sobressalta —Um sorriso! — suavizando o tom, deslizou a mão no queixo, suspirante.
Ela mordeu o lábio. Do encanto nascia uma líquida cúpula que nublou lhe as órbitas. Em meio à aridez raiana, apenas ela carregava uma perspicácia tão felina.
—Nunca mostro os dentes — ele fechou a boca. Indiferente à maré bebericando a margem, desviou a atenção para os coturnos e permitiu que as ondas infiltrassem nas meias.
—Desculpe-me, senhor Irrisório — a voz dançante o desarmou.
—Vem cá. Olha pra mim — ele apontou a própria sujeira —Acha que tenho motivo para rir?
Um assobio cortou o ar. Bigão atendeu, contornando a água. O cão permitiu a carícia, cedendo o couro negro ao toque de Moça. Sem desviar de Bango, ela lançou afiada:
—Ele não te alegra?
O carrasco afundou no pescoço do Doberman, aspirando a mistura de bicho e maresia. A onda selvagem arrebentou neles e o cão disparou até a grama da orla, fustigando-os com o rabo carregado de gotas.
O riso deles cortou a maré alta. Mas o magnetismo dela o ancorou no momento. Encolheu-se, abraçado com os joelhos até se reduzir.
—Por que não diz seu nome? — o balanço infantil trazia-lhe uma timidez que a largura dos ombros não sustentou.
Ela o media na calmaria de quem guarda lâmina debaixo da língua.
—Mas eu disse — retrucou, a voz espumosa.
—Tu mentiu — ele assegurou.
—E você não? — ela inclinou o rosto. A bochecha aveludada roçou o queixo dele, por fazer. Bango, ancorado nos braços, memorizava o rastro do lírio que dela exalou.
O arco pedrado cedeu à carne e Bango a cercou num abraço contemplativo. Lado a lado, vigiaram o bater das ondas ditando o compasso nos pulmões.
A guarda cedida deu espaço à conversa:
—Já tô bem encrencado. Não quero mais um problema, entende? — consultou o pulso, mas o olhar passou pelo relógio sem registrar os ponteiros; já não tinha pressa.
—Encrencado, é? — deitou no ombro dele. O calor que emanava atravessou o macacão, marcando a pele com brasa.
—Então o homem de horários também é um homem de problemas?
—Rum — soprou sarcástico enquanto o dedo dele desenhava círculos na areia.
Ela o imitou, mas seu indicador era dançante; a feição precisa de Bango surgia. O fôlego dele travou. Encarava o próprio cansaço moldado na areia, exposto pela ponta do dedo dela.
—Você é artista? — o músculo gélido.
—Já fui... — Moça devaneou, buscava além do mar —Num passado distante. Noutra vida talvez? — sacudiu a terra dos dedos, enxotando lembranças.
Ela contemplou a vulnerável caricatura:
—Não entendo por que isso é errado pra Alparróis…
Bango empertigou-se, resgatando o discurso:
—Artista é como areia na engrenagem do sistema — a voz ganhou corpo —Não produz aço; convida o operário a olhar pra cima, ao invés de servir.
Apontou para as constelações. O orgulho estufava o peito de Bango, tornando-o maior que seus impasses.
—E qual o problema de se inspirar no céu? — ela franziu a testa.
—Arte não alimenta o povo. E o devaneio é o pai da fome — o tom professoral.
—Uma semente pra dissidência, porque ensina o homem a enxergar o que não existe — a fez encara-lo.
—Num país de invenções, não há ordem.
Enquanto despejava as frases de efeito, ela se fixou no modo como as mãos subiam mecânicas. Conseguia ver o reflexo dele no espelho de casa, repetindo o gesto e ajustando o ângulo até a pose parecer espontânea.
—Não se parece contigo? — gesticulou para a efígie que o mar já lambia.
Ele levantou, analisando de cima.
—Parece — respondeu —Até mais bonito…
Notando a aproximação de uma onda maior, Moça o tomou pelo braço. Bango deixou que ela o levasse.
No limite da grama, ela o enlaçou pelo tronco; os braços mal deram conta da curva. Presos um ao outro, suspiraram. A água lambeu a margem, diluindo no emaranhado de algas; o rosto em grãos.
—Por que vêm me ver? — levantou o rosto, suspendendo no tempo a incerteza de um beijo.
O hálito dela, um rastro úmido de pêssegos, fisgou o rosto dele. A ponta das unhas traçava um caminho tortuoso pelas costelas, furando o jeans do macacão.
—Não sei… — dentre espasmos, cedia ao desejo de morder a origem do aroma.
Seus lábios se atraíram, mas ela esquivou; deixando ele bicar o vento. Correu para o cão, que tiritava encolhido debaixo do banco. Bango, com o rosto pendido, levou a mão ao punho da faca, mas os dedos não a sacaram.
—Como é que ainda não cortei sua cabeça? — a voz murchava ao cortar distância entre eles.
Ajoelhada na grama, enterrou mãos no pelo úmido.
—Ele tá congelando! Acabo de saber.
O carrasco murchou.
—Além de artista e mentirosa, também fala com os animais? — o deboche perdeu fio.
Um riso ávido explodiu dos lábios pincelados. O nó escalou o estômago de Bango — a mania feia de cercar o instante, de eternizá-la para si, o dominou.
—Vem sempre sozinha? — as íris percorreram a silhueta franzina, detendo-se na fragilidade —É estranho pra alguém do seu tamanho.
Moça não desviou o olhar, se ergueu — nociva — diante dele.
—Quando se é descartado aqui… a selva nos endurece, Bango — a voz perdia doçura.
—As aulas na Sede... são molduras pra uma parede vazia. Nunca fui às palestras.
—E como tem certeza que é tão ruim, se nunca foi? — distraía-se com o dançante vestido.
—Vê muita gente viva por aí? — a pergunta gelou o ar entre eles.
—Tem razão — admitiu, mediante a crueza. Os braços a encurralaram contra o poste —Mora aqui?
—Por que eu te contaria? — ela protegeu o tecido que Bigão insistia em fungar.
A pergunta foi uma rajada fria. Não existiam motivos, nem leis em Raia, que obrigassem aquela mulher a confiar nele. Bango coçou os olhos, que ardiam, secos.
—Preciso descansar. Faz um tempo que não prego os olhos.
Moça reparou no arroxeado que partia o nariz bulboso. Pesaroso, Bango estendeu as palmas e a luz dourada denunciou crostas viscosas.
—Vem comigo — suplicou, a obrigando ouvir a contração de seu peito. O toque lixoso a feriu, mas ela resistia à fuga, e descansou no descompasso dele.
—Ir contigo? — a garota recuou, mas ele a cercava, os dedos aprisionando os dela.
—Sim — a voz lunática.
—Pra onde?
—Pra casa — a voz esvaiu-se.
Família
A profundeza da memória o absorveu. Era minúsculo, envolvido na fragilidade perante o mundo dominante. Ele apertava um trompete de pelúcia, que despencou no chão com seu choro. A voz tinia num choro clamante pela mãe.
Os soluços do garoto desconcertavam o lugar chique, os estranhos.
A sussurrante voz o repreendia:
—Quieto, Ban. Xiu!
Os ruídos sumiram e o aroma de cigarro barato o sufocou. A taça reluzia, ferindo os fadigados olhos e num rouco, ele fez o apelo —Mama, casa — a súplica infantil morreu na garganta do homem.
O flash foi engolido e ele piscou — a visão embaçada — enxergava as palmas estourarem o silêncio —Bango? Tá me ouvindo? — exigia Moça, inquieta.
—O que disse? — murmurou, ciente do peso de um corpo adulto.
—Esquece — ela deu as costas.
Mas Bango a agarrou pelo cós; numa pressão cuidadosa.
—Por favor — o olhar marejado refletia o cansaço de toda uma vida.
Moça chocou-se; era estranho ser agarrada brutamente e ouvir um pedido tão humano.
Livrou-se abrupta dele. Bango se manteve em cordial distância.
—Por que eu iria com você? — a voz intrigada o estudava. Ele não respondeu. Não haviam prós.
—Não deveria vir, eu acho — respondeu, mastigando a unha, a mão livre recuperava a guia de Bigão.
O Doberman lamentoso ganiu, a ancorando. Os olhos oscilaram, perdidos entre Bango e o cão.
—Ok. Mas só se me passar o canivete primeiro — ditou.
—O quê?!
—Prefiro sentir a lâmina no meu quadril do que na fuça — admitia, apontando o próprio nariz.
A contragosto; o zumbido do fecho marcou a entrega.
Forjada a inocência, ela levantou o vestido, guardando o canivete na bainha da calcinha e exibiu o lilás sem pudor.
Bango que tolerava vulgaridades tão discretas, engoliu seco, com o suor brotando na testa. Moça consertou a alça do vestido, deu as costas e assumiu o controle do destino.
—Como sabe que não sou do litoral? — contraiu a sobrancelha ao vê-la subir o morro.
—Te vejo descer pelos trilhos sempre — sem espaço para réplica, roubou a guia e correu com o cão, que aceitou a aventura. A audácia dela o despertou e ele acompanhou as silhuetas sumirem dentre as folhas resinosas.
Não refletia; o corpo disparou para alcançá-los. Era o curta-metragem de uma vida perfeita a qual não tinha direito.
Os fios ondulavam como seda ao vento, em sincronia com a brancura do tecido que destacava o verde relvoso.
Era o pecador perseguindo a luz. No momento em que os pinheiros engoliram seus rastros, ela estancou ofegante, cortando o transe:
—Sabe... — recuperava o fôlego em goles, sentada numa raiz ancestral —Eu sei que podia ter me partido ao meio.
—Mas acho que não vai — entregou a guia, fixa nos olhos faiscantes.
—Por que não? — aquele percurso era rotina, Bango controlava a respiração.
—Vai? — ela fez uma careta. Ele permaneceu absorto.
—Tá chegando — ele indicou o topo —Consegue ver a estação?
Moça caçou o ponto no horizonte.
—Sim — seguia o arco de ferro.
Bigão sacudiu a poça que lambia e os seguiu, deixando o rastro das patas na trilha.
—Moro antes disso. Vem. — apertou o passo, chegando primeiro com o cão, que correu ao seu lado. Deixou Bigão de guarda e voltou para acompanhá-la. Exausta e desgrenhada, Moça denunciou o preço da ladeira.
—Eu te carregaria — propôs.
—Não ouse — a voz o cortou. Bango aceitou o limite e seguiram mudos atravessando a última árvore antes que a casa surgisse.
A chave girou com dificuldade na fechadura.
—Que casona... — Moça coçou o braço, intimidada —Ganhou por escalão? — a dúvida escapou.
—Não — a voz ríspida. Bango limpou o suor na manga, ao empurrar o portão.
—Construí sozinho.
A garota aceitou num olhar duvidoso —Sem moedas de troca?…
—Sua curiosidade é de matar — descontraiu no calor das paredes.
Moça apossou-se do sofá enquanto ele ainda tentava se livrar das botas.
—Não fui sarcástica — o tom urgente.
—Me conhece tanto assim? — rebateu segurando a meia encharcada.
A bela criatura descansava sob a quentura do lampião, afundando no acolchoado. O sono a vencia, quando fungou o tecido:
—Que cheiro é esse? — balbuciou de bruços.
Bango avistou o tapete nos pés da bancada, sujo de secreção seca. Sem palavras, cobriu o corpo franzino com lençóis limpos.
—Não tirei o lixo — a voz rouca —Fica quietinha vai. Já, já amanhece.
Moça alheia; respirou a densidade do ar no sono pedante.
Bango não limpou nada. Emergia de um sábado empoeirado e ele apenas serviu a ração e desabou ao lado do sofá. O rosto suavizou. A urgência missionária foi substituída pelo conforto da aceitação. A primeira vez em que não dormia só.
Não desejou machucá-la.
—Uma família feliz — o pensamento flutuava; uma promessa proibida. O chão duro pareceu veludo e o sono o levou num ronco profundo. Bigão, satisfeito, correu até os seus pés em busca de calor e se aconchegou.
Amanhecer
O dia correu do amanhecer ao poente até que um zumbido a despertasse. Moça bateu os cílios; os pelos dos braços se eriçaram antes da vista focar no teto. O mofo sorria.
Bango ocupava o chão como um fardo esquecido. O pulso adormecia sob o peso da nuca; o grisalho mesclado caía no bigode, acima da boca entreaberta.
A regata manchada guardava o peito peludo. Ela passou por cima das pernas estiradas, sem o cuidado de desviar.
Em vez disso, mediu a largura das mãos dele, imaginando se uma das palmas bastaria para esmagar seu rosto inteiro.
Moveu-se em pés de pluma. O piso frio mal ecoava os passos enquanto os olhos varriam o desleixo da sala.
Ao alcançar o raio de luz no corredor, o sonho da noite se desfez. O tapete era rígido; as fibras tinham bebido o vermelho até saturar.
O coro de moscas se agitava num banquete frenético sobre o tapete. Um gosto ácido subiu, queimando o esôfago. Ela cobriu a boca; em espasmos violentos, esbarrou às cegas até o banheiro.
Limpou os lábios com o dorso da mão e pelo reflexo, o olhar fixou na sala. A silhueta de Bango permanecia imóvel; o peito subia e descia num ritmo denso, inalterado. Só então o ar dela escapou num chiado longo.
Voltou-se para o cabide; uma pequena árvore morta moldada pelas mãos de Bango, o molho pendurado. A ponta da chave riscou o aço, errando a fechadura próxima ao sofá, até que ela a forçou para dentro.
O ferrolho travou. Ela manteve o ar entre os dentes, o suor frio escorrendo nas têmporas. Faltavam três.
O pânico foi cortado pelo som oco de unhas raspando a madeira. Bigão. O coração dela deu um solavanco contra as costelas. Ela se inclinou, os olhos saltando do molho de chaves para a porta dos fundos; lá, a fechadura menor de todas.
Separou a única chave pequena entre as outras. No instante em que o metal rasgou a trancas, o estalo ecoou. Moça não olhou para trás.
Lançou-se floresta abaixo. Galhos chicoteavam lhe na corrida cega, enquanto Bigão rasgava a mata em seu encalço.
Bango levou um baque com a luz invadindo as pálpebras; as escleras apimentadas arderam ao abrir. Sobressaltou ao dar de cara com o vão escancarado da porta.
De cueca e mãos vazias, entregou-se à perseguição. Ganhou a floresta, o açoite dos galhos na nudez e o sangue a pontilhar a pele dormida.
Paralisou na metade da descida — onde o matagal engolia.
—Procurando isso, garanhão?
A voz animal veio de um vulto corpulento. Moça estava de joelhos, a cabeça puxada para trás pelos cabelos, enquanto a lâmina de um facão enferrujado vincava a pele da sua garganta.
Os dentes trancaram até o limite do osso. O estômago de Bango borbulhou um queimor violento.
Olhou para as próprias mãos vazias; depois para a nudez exposta à mata. Os punhos cerraram. O homem era de seu porte, e o facão, um aviso reluzente.
Mediu a distância, o músculo da coxa teso para o bote, hesitando no peso do metal contra o pescoço dela.
—O que você quer? — a voz saiu grave.
Bango deu um passo à frente. O som exigiu. Seus olhos não desviavam da ameaça sedenta.
—É só pra ficarmos quites, meu caro — a saliva salpicou o rosto de Moça. O homem recuou um passo, a arrastando.
Bango avançava, testando o reflexo do outro, mas a lâmina o fisgou: a ponta afundava na pele macia. O olhar de Bango travou no pingo traçando o rastro rubro pelo vestido.
—Longe — o olho avelã ordenou, medindo a distância —Ou a cabeça dela vai rolar até o mar...
O peito de Bango ardia em brasa.
Ele fixou o olhar em Moça. O rosto terroso, cortado a rastro de lágrimas, denunciavam pupilas dilatadas engolindo a íris. No fundo do negrume, restava apenas o reflexo de Bango — a pergunta muda que ele não sabia responder.
—Devolve minha garota. Jin Doliver não perde pra qualquer fascista de merda. Eu vou foder vocês.
O riso rascante veio do fundo da garganta. Na moldura da barba loura, os dentes prateados reluziram — um brilho caro e cruel de quem já venceu.
Houve um estalo. O turbilhão — do túnel ao porão — fustigou a mente de Bango. O olhar dele desceu, magnetizado, até o pulso do Jin. Lá, em letras cursivas, Eva queimava: na cicatriz de tinta.
—Cadê ela, seu animal?! — o grito de Jin estancou o flashback.
O calafrio subia pela nuca de Bango; o gosto de bile inundou a boca, travando-lhe o maxilar. No silêncio da mata, seus olhos saltavam numa batida errática: Jin, Moça e o rastro de sangue que escorria da laise.
—Acho que é aqui que acaba… — o peso dos ombros de Bango vergou o resto do corpo. O tom era desprovido de cor.
Do matagal, Bigão irrompeu num rosnado estrambelhado, cravando os dentes na virilha de Jin. O coice brutal arremessou o bicho, que rolou ganindo; o vacilo do aço.
A lâmina afrouxou na garganta de Moça e ela não esperou.
Sacou o canivete da bainha íntima e torceu o corpo. Num único golpe, a lâmina subiu no impulso do quadril, encontrando o osso do queixo de Jin. O corte foi seco.
Jin recuou, cambaleando; as mãos buscaram apoio nos arbustos, e os espinhos morderam seus dedos. Ele despencou monte abaixo, desengonçado, tentando estancar a papada aberta.
Bigão, arrastando uma das patas, partiu em seu encalço. O latido foi sumindo entre as árvores, até serem engolidos pelas copas.
Bango amparou Moça antes que ela atingisse o solo. O canivete escapou dos dedos dela e o pescoço verteu um calor rítmico nos braços dele.
O baque do alívio o dobrou; ele a apertava contra o peito, os dedos afundando na carne como se ela fosse o trompete de pelúcia.
Mas Moça não cedeu ao peso. Retesou; ela desvencilhou-se e num solavanco, ganhou o prumo das pernas.
—Preciso ir. Não podemos nos ver de novo — a voz era um sussurro, enquanto os dedos fechavam com força o vestido —Não sobrevivi até agora pra morrer assim!
—Precisamos ficar juntos! — Bango berrou, as mãos tateando as dela como se pudesse resgatá-la da própria decisão.
—Bango. Não. — a sentença o transformou em pedra.
—Não dá para ficar com você. — o olhar dela o percorreu num peso que ele não sustentou. Bango baixou a cabeça; cedido.
—Se ele te achar? — ele prensou a mão dela contra o próprio peito, onde o coração batia descompassado.
—Não vai — ela sentenciou, recuando. —Por favor, me deixa em paz.
Moça deu as costas e mergulhou no matagal. Mas ele permaneceu estático, os braços pesados. O véu foi devorado pelo verde até que nem o som dos galhos quebrando restasse.
Só então, a primeira lágrima despencou, inundando um rastro quente na pele suada, antes de se perder na barba quase branca.
O coro dos pássaros e o rumor das folhas pesaram; o fazendo engolir o rastro de Moça e o último latido de Bigão. A mesma letargia que o abraçara no quarto vazio da mãe o beijou.
As mãos de Bango agarraram-se ao peito e rasgaram o pano manchado da regata em fiapos, até que as unhas encontrassem os pelos, que ele também arrancava num descarrego.
O choro travou num nó seco que se recusava a permiti-lo. A luz do poente morria em sua barba salgada.
A agonia dominou seus passos no limiar entre o horror e o desejo. O silêncio do casebre era a única herança que lhe restara.
Bango estancou no batente; Ricardo ocupava a poltrona na folga obscena de um comandante, os pés jogados sobre o banquinho de bar. Ao lado dele, o bastão de espinhos repousava, as pontas prontas para o descarne.
—Oi, Sora. É ótimo te rever.
O som estático da voz chicoteou o ar, arrancando Bango do transe. O passado, agora, cobrava o preço.








Quando ele é chamado de Sora soa tão cínico.
Aproveitando a leitura!
por favor, não faça isso, estou implorando ansiosa por mais!