CAPÍTULO 3: PUDOR
Enterrado em Alabazzo
O Resgate
Anoitecia em Raia e o frio arrepiava lhe a pele. Bango atravessou a cidade até o canil municipal — uma carcaça de ripas e zinco — e golpeou o balcão com o nó dos dedos.
A cacofonia de latidos antecedeu o funcionário; que surgiu com um cigarro no canto da boca, pendurado. Ao encarar Bango, franziu a testa, intrigado pela postura engessada.
—O cachorro. Bigão — as palavras saíram monótonas.
O funcionário hesitou. Seus olhos travaram no punho do macacão metalúrgico; notou a crosta escura, uma mácula que não era lama, nem graxa. O pavor o atingiu.
—Eu não posso liberar sem os documentos... — a frase morreu.
Bango afastou as mãos do balcão e as tencionou. Pendeu a cabeça para o lado até que o estalo das vértebras ecoasse, travando o olhar no do velho.
O ar estagnou no galpão. O senhor limpou o suor que perolava a testa e o pomo de adão lhe saltou num gole.
—O Bigão. Sim... Eu — tropeçou nos calcanhares —…Já volto!
Sustentou o olhar de Bango até o limite, antes de sumir entre as grades. Voltou rápido, o cão resistindo à guia. Esticou o braço, entregando-o com corpo o mais longe possível.
Bigão vibrava num ganido baixo. Bango pegou a guia e partiu sem agradecer. O velho não se moveu. Trêmulo, ouviu o bater das botas se perdendo.
O Bunker
Bango cortou caminho pela costa para encontrar Leo. Mas a areia guardava o rastro de Moça. Ao encarar o banco em que sentaram, o ar condensou: uma fisgada odiosa elevava o amargor desejante. Seguiu, sem mais olhar para trás.
As ondas que fustigavam os rochedos salpicavam a duna escura que tragou suas botas. Bango encarou a linha quando enxergou o horizonte e, por um átimo, foi miúdo. Apertou a guia do cão, voltando como dono do próprio passo.
Avançou, arrastando Bigão pelo lodo; a terra movediça agarrava cada passo até que atingissem o berçário do manguezal. Na chuva de cipós, emergia o dente de rocha: uma fenda da sua altura que fedia a velhice.
Curvou-se sobre os joelhos das bruguieras. Ao seu redor, o emaranhado de raízes era um exército de gigantes petrificados. Bango mergulhou a mão numa das entranhas lenhosas. E no interior enlodado, os dedos encontraram o aço frio.
Examinou o granito até isolar um vinco comprido. Alinhou a placa ao entalhe como um beijo na rocha. Pressionou. Gatilhos internos ecoaram do fundo da pedra.
A garganta se abriu.
Deslizou para dentro, arrastando Bigão. O portal cuspiu o som das engrenagens e se lacrou num impacto, engolindo-os.
O interior aquecido, foi um convite para Bango. Paredes revestidas de carvalho abafavam seus passos. A luz dos candeeiros de latão lançavam lhe a claridade dourada nas pálpebras. O cão farejou a fumaça de café até os moccasins.
Ricardo era a muralha, guardando o corredor. Na rigidez da postura, ostentava um fone de ouvido, seu luxo anacrônico.
—Horário restrito, Sora. E bicho não é permitido — disparou, a voz fluída, entreolhando Bango como um detalhe incômodo.
Bango soltou a guia, a fúria contida. Passos anunciaram a chegada. A porta correu e Leo caminhou numa lentidão insolente. Coberto pelo robe de seda vinho, segurava uma taça de cristal.
—Ricardo, meu caro! — a voz macia deslizou pelo corredor. Um sorriso expandiu dentes que iluminavam lhe o rosto.
—Que falta de modos!
Leo aproximou-se de Ricardo e, com um gesto empurrou o segurança, afastando a cortina incômoda para ser revelado a Bango.
—Sora não é um de seus informantes, Ricardo. É o convidado de honra. Peça desculpas a ele — inclinou-se para Bigão, que o reconheceu num latido vibrante.
—E, por favor, peça ao cão também. O animal parece ter mais etiqueta que você.
O segurança empalideceu, a mandíbula travada enquanto murmurava pedidos ultrajantes de desculpas. Bango se divertia em atônitas risadas. Naquele bunker, a força de Ricardo não valia nada.
Leo reverenciou um largo convite. O barro nas botas de Bango desonrara o carpete persa, mas o anfitrião não piscou.
—Entre, o café ainda queima na bandeja.
Bango concordou.
A Máscara
Ao girar a maçaneta dourada e adentrarem no cômodo, Leo o envolveu num abraço emotivo. O perfume amadeirado era uma névoa cobrindo a acidez de Bango.
O corpo enrijeceu. Mas Bango suportou o cerco. A linguagem da fraqueza despertava-lhe o instinto de cravar o cotovelo na costela de Leo e recuperar espaço.
A inteligência que construíra um império — com a audácia de tratar subordinados como lixo — lhe induzia grande consideração.
—Sora — a voz o trouxe de volta.
Bango se agarrou ao nome ideal. Fedia a sabonete de enxofre nos dias bons, mas o perfume de Leo evidenciou sua desgraça.
—Vai gostar de saber o que descobri sobre a modronia infiltrada — sussurrou no ouvido de Bango, que não reagiu ao calor do hálito canelado.
—Acalme-se, filho. Tá tenso que nem corda de piano — o largou, mas manteve a mão no ombro de Bango, massageando o trapézio rígido. Os dedos habilidosos destravaram a tensão do músculo.
Num suspiro, Bango limpou os pulmões. A vibração nos nervos repelia o toque. Leo desfilou até ajeitar-se à mesa de carvalho, abarrotada de pastas e telefones de baquelite.
Acenou para Bango sentar, tragando-o para a urgência dos arquivos. Leo reparava; o brilho do relógio se destacar na imundície do carrasco. Um medalhão de prata que a lama não tocou.
—Cuidou bem dele — Leo o avaliou no pulso de Bango; a peça de sua coleção.
O próprio zelo fez Bango se orgulhar. Afirmou com a cabeça.
—Vamos ao que interessa — Leo desceu uma oitava.
Antes de se afundar na poltrona de couro, Bango sacou a identidade amarelada. Eva sorria na foto, em contraste com a crosta nas unhas dele.
A fisgada no estômago avisou não ser a criatura distorcida que ele descartara no porão.
Lançou o documento sobre a papelada na mesa.
—Encontrei isso no túnel, senhor — a voz firme, os braços cruzados —Encontrei a dona, mas… — ele manteve o olhar distante.
Catou o cartão. Os azuis cinzentos de Leo processaram.
—Me pareceu uma jovem perdida, confusa. Correu quando o namorado feio apareceu e não pegou de volta. Tinha um lenço de seda também.
As íris de Leo faiscaram, mas manteve-se imperturbável.
—Não produzimos isso aqui, o senhor bem sabe. Só em… — a cabeça pesou.
Eles se entreolharam e repetiram em um fôlego só:
—Módronos.
A pronúncia perfeita.
Leo estreitou os olhos, e então relaxou, num suspiro satisfeito.
—Você é meu Odin, filho. Sinto como se dividíssemos o mesmo sangue — o tom sério.
—O único nesta cidade de miseráveis que entende a importância da ordem. — deu dois tapas firmes nas costas de Bango.
—Se os exilados seguissem seu exemplo, Raia não seria medíocre…
—Seria a maior fortaleza bélica! — o estalar de dedos convocou Maurício das sombras.
Um veterano de terno cinza bem cortado, deslizou até a mesa com uma bandeja. O som do vinho jorrando na taça de Leo foi o único ruído no escritório. Bango salivou involuntariamente, hipnotizado pela riqueza da cor.
—Aceita? — sugeriu Leo, torcendo o nariz.
—Lisonjeado, meu senhor. Mas sabe que não bebo — Bango desviou o olhar da taça.
Leo bateu palmas e o velho prestou continência, retirando-se.
—Vai que um dia a resposta é outra!? — caricato, apreciou o gole.
Os dois riram. Na descontração de velhos conhecidos, colocaram o papo em dia, as palavras fluíam enquanto Leo saboreava o vinho entre uma frase e outra. Bango assoprava o café.
A cura
Leo, passando o polegar sobre o rosto de Eva, começou:
—Um sujeito… Jin Doliver. É a cabeça da cobra, Sora! — o tom extasiado —Fundador da imundície da… — desenhou as aspas no ar —“antiditadura”.
—Um só homem? — Bango custou entender.
—As ratazanas, Sora. Não conquistam nada, só destroem o que está de pé.
—Do atentado em oitenta e nove?
—Isso! — comemorou Leo, tomando o último gole —Estão infiltrados em Raia. Gravando áudios, colhendo imagens... Querem convencer o mundo de que Alparróis perdeu o controle deste distrito — a voz baixando de tom —Isso é um vírus, Sora. E só nós temos a cura — levantou-se.
Bango assentiu, compreendia perfeitamente.
—Tecnólogos?
—De meia boca, sim, sim. Jamais chegarão aos pés da nossa grandeza na capital — desdenhou Leo — respirando fundo, enquanto conectava os pontos no mapa de Raia com os alfinetes —Jin é malandro demais pra se mostrar, meu filho. Usa pontes!
Deu um toque seco na foto.
—A Srta. Nilton é o nosso passe até seu esconderijo.
Num peteleco, Leo descartou o cartão, empertigado.
—Se Eva morrer nas mãos de um miserável qualquer, Jin desaparece nas sombras e Raia vira um completo Pandemônio! — gesticulou de olhos febris para Bango.
—Alparróis me delegou a missão clara de resolver a situação antes de atingir tal ponto. Você é meu sucessor, portanto, deve me ajudar com esta missão.
Leo descansou no assento, a vermelhidão no rosto cedendo à palidez cansada.
‘Sucessor’ ecoava contra as paredes. Bango permitiu que o mordomo silencioso lhe desse a xícara. Era um café caro, de aroma denso, mas para ele sobrou a travada na língua.
Engoliu o amargor e focou no ponto fixo, lutando para manter a face rígida. Mas, detrás dos olhos, o sorriso de Eva ardia empurrando o café de volta para a garganta.
Leo se levantou, o corpo flutuando de um canto a outro, a taça oscilando em seus dedos.
—Querem transformar Raia num esgoto. Para ferir o Grande — Bango quebrou o silêncio, a voz convicta —Se na cabeça do povo, a ordem virar opressão, a festa tá feita.
As unhas rasparam o fio rubro seco no cotovelo, levantou.
—Eles são o vírus. O Grandioso é a cura. E nós... — o sorriso maníaco para Leo — seu exército.
A espinha esticou conforme reassumia a postura de soldado.
Leo, deliciado com a submissão de Bango, rasgou o espaço.
—Exato, meu caro! Exato!
Sobre a mesa, o odor do álcool se atenuou. A voz caiu, conspiratória:
—Detenha-os.
Bango golpeou o peito com a palma e travou em continência.
Leo fixou nele, os olhos azuis apertados pelo brilho da embriaguez, numa umidade gentil.
—Sora — deixou pairar. Sugou o último gole e espatifou o cristal no chão num tinir. Suspirou fundo, as narinas dilatadas.
—Alparróis confia no belo trabalho que faço pela cidade. Entende, meu filho?
Bango concordou. E, na máscara serena, desfez a continência.
—Se você a viu, ela ainda rasteja por aí. Traga-a até mim antes que os ratos tentem explodir a fronteira. O caos é inadmissível no meu distrito.
Leo, descansando no ombro de Bango, cruzou as pernas.
—Você já tem a confiança dela, não tem? O bom homem que a ajudou na trilha...
—Tem razão — a voz de Bango oscilou.
Bango apertava tanto a porcelana que temeu vê-la ruir. O suor brotou, lavando a ferrugem de sua testa, enquanto ele sustentou o ar vitorioso de Leo.
—Eu os trarei o mais depressa possível! — respondeu, atônito com a ponta do volume de capa dura lhe formigando a testa.
—Ótimo! — Leo cortou o ar com a mão.
Bango apressou-se, mas a interrogação ainda pairava. Ele não deu o passo seguinte. Virou o rosto — o suficiente para cobrir a luz do abajur.
—Leo, por que ela tem que estar viva?
—Eva Nilton não é o ponto. Ela é a trilha que nos levará à toca dos ratos — Leo deu de ombros. —Minha missão é capturá-lo e abrir sua boca. Foi uma sorte conveniente você tê-los encontrado primeiro.
Um sorriso frio cortante:
—Se ela for recuperada e “convencida” a falar, pegamos o desgraçado. Precisamos de cada nome de quem ousa recrutar em Raia.
Antes um refúgio acolhedor, agora o Bunker prensava lhe as costelas. Era o herdeiro. Precisava estancar a dúvida para agarrar a ascensão.
—Certamente — murmurou Bango, o peso de invisível a lhe golpear a consciência.
—E… se ela não for encontrada, Leo?
A risada hostil de Leo, enraizou no ouvido do carrasco.
—Ora, ela será encontrada, meu filho. Ninguém desaparece em Raia sem que as pedras me contem. E quando os pegarmos, você será o primeiro a dar conta deles.
De fisionomia impenetrável —O senhor pode contar comigo — esboçou um sorriso amarelo.
O Refúgio
A pressa trouxe-lhe Moça, banhada pela luz no banco da praia.
—Senhor, eu… — um olhar rápido nos ponteiros que acusavam onze e vinte —Preciso me apressar em concluir a missão. Nem alimentei Bigão hoje. O senhor permite?
Leo arqueou uma sobrancelha, o sorriso diminuiu. Enxergou nele o sinal da lealdade.
—Seus olhos me lembram os da Lídia… — fixou-se no alaranjado dele, nostálgico.
Gelou a espinha de Bango, lhe petrificando. Ergueu um muro de sombras na mente, empurrando o nome da mãe para debaixo do tapete.
Leo reteve a guia, por um segundo, o forçando a esperar.
—Trate o cão direito, Sora. Ou meus homens o levarão, pedacinho por pedacinho.
—Sim, senhor! — Bango travou a mandíbula, o aperto na corda foi seu juramento.
Leo o acompanhou até a saída. O corredor foi mais estreito na volta. Deteve-o diante da fenda, segurando Bango pela manga saturada de lama.
—Traga-os, Sora. Mas antes, limpe-se pra que ninguém faça perguntas.
Leo deslizou a alavanca de bronze e o mecanismo obedeceu de imediato. Com o estalo dos trincos se retraindo, o bloco recuou e deslizou para o lado.
A sombra das siriúbas projetou-se sob o luar. Uma ventania salobra invadiu o calor do esconderijo, chicoteando o rosto de Bango. Ele inalou o acre e saltou para o manguezal, puxando Bigão para as sombras.
Antes que afundasse na lama, ouviu o estrondo da passagem se fechando.
Correram até as copas darem lugar às estrelas. O batuque no peito não bastou para calar o motim dentro dele. Bango entregou-se à maresia, os pulmões ardendo em busca de ar. Bigão mantinha o seu ritmo, a língua de fora balançando a cada trote na areia.
A vegetação rareou, abrindo espaço aos coqueiros fustigados. O assobio quimérico deu lugar à percussão das ondas. Bango provou a maresia no rosto antes de avistar a espuma.
Cruzou a fronteira onde a densidade da terra se rendia à brancura das dunas. No espelho de uma piscina natural, Bango viu — entre o salpico lamacento — as raízes da barba. Chutou a água, dispersando o reflexo, e seguiu. Bigão o acompanhou, sacudindo-se para secar os pelos numa chuva miúda.
Tramas de nylon podre emergiam como teias enterradas. Estacas dividiam o avanço das ondas. No limite do areal, um poste amarelo rasgava o breu, zumbindo a cada falha sobre o bancos vazios.
O peito de Bango martelava como um bombo solitário. Lá estava ela. O mar avançava e a espuma das ondas lambia os pés descalços; de novo e de novo.
Ela permanecia indiferente ao vento que esvoaçava o negrume de seus longos fios, enquanto o vestido de laise branco ondulava como uma bandeira contrastando o vazio marítimo.
Ali, o lúdico venceu a realidade. Sob o faiscar dourado do poste, a imensidão no mar engolia suas queixas, devolvendo-lhe o direito de ser apenas um homem com o queixo por fazer, buscando o abrigo de uma conversa na praia.
Caminhou até ela, o peso do dia escorria pelas botas. A pele dela tinha a textura da névoa. Bigão sentou-se ao seu lado, as orelhas relaxadas e o olhar fixo na mulher. Nenhum rosnado, nenhuma tensão.
Ele surgiu ao lado dela. O mar se acalmou, cedendo espaço ao som da macia voz.
—Procurando algo? — ela devorou seus olhos, o perigo palpitante refletia o luar.
—Ban... Go.












Eva era pra ser só mais uma de suas vítimas, mas pelo jeito alguém tem que se fuder em algum momento. Tá aí, vai ter que correr atrás o dobro pra entregar o que Leo quer por ter simplesmente matado uma mulher aleatória, que não tem nada de aleatória.
Boa sorte Sora, precisarás.
BAN.GO. QUERO MAIS DESSA MULHER POR FAVOR!