CAPÍTULO 2: ANGÚSTIA
Enterrado em Alabazzo
12 de mar 1995
Bango furioso, livrou-se de Moça e partiu. A contragosto, a imagem dela permanecia na retina. Ensaiou frases no caminho que jamais proferiria; explicando a uma estranha sua engenharia interna. Queria ser o assunto, o enigma; a resposta.
O remorso de desviar a rota o alcançou, mas Moça o espetara como se fosse um boneco vodu.
—Por que parei pra ouvir ela? — resmungou, chutando a pilha de folhas secas.
Despistou a areia da fronteira — onde a energia piscava em raros postes — e subiu montanha acima. A cidade era de caráter singular; uma montanha de pinheiros cravada no Atlântico. À medida que se aproximou do topo, o ar tornou-se rarefeito e a resina cobriu o cheiro salgado.
À direita, Bango se deteve absorto com a cascata partindo-se em brumas d’água; uma renda espumosa suspensa nas rochas. Raia dependia do caos para matar a sede. Esse pensamento lhe agraciou.
A silhueta do tecido bege surgiu no vapor. Bango escondeu-se no arbusto mirando no rastro. Equilibrando um balde na cabeça, a mulher descia o morro. Uma visão reconfortante. A alça de metal refletiu, antes de ser engolida pela neblina.
Ele retomou a subida. Se orgulhou de Alparróis e sua mão de ferro ao admirar a tatuagem no pulso; compreendeu — cedo demais — que exilar era um ato de higiene nacional. O oceano separava a nobreza capital da imundície ilhada.
—Raia é o balde de lixo perfeito — fitou o vilarejo tacanho lá de cima.
O carreiro estreitava quando o som dos coturnos cessou. A ferrugem lhe invadiu as narinas; trepadeiras enlaçavam trilhos carcomidos, cortando a montanha.
Sonhou com um passado onde o costume tradicional trouxera a verdadeira ordem. Projetar-se de homem armado — movido pela doutrina febril — era o passatempo ideal.
Acreditava pertencer ao período em que a sociedade patriarcal reinava absoluta. Bango não queria servir; queria ser o próprio poder, o pilar acima de toda a volúpia moderna.
O topo
A lua refletiu o lenço amarelo preso no galho do bonsai. Bango ignorou a umidade e se ajoelhou na lama; empapando a calça. Os dedos hesitantes— vincados — agarraram a seda, como se o toque pudesse ferir o tecido.
—Olha só… — sussurrou, hipnotizado pela fibra —Raia não produz nada além de cânhamo e mofo — a vaidade ali, nascia do abate: tecidos rústicos, couro animal e o brilho das escamas, tudo forçado pelo abandono.
—Estrangeiros — sibilou e, fechando os olhos, esmagou o tecido contra o rosto. Forçou os pulmões a sugarem o odor até que descobrisse o adocicar almiscarado.
O mal presságio lhe invadiu. Era um mapa aromático; pôde ver a sensual indolência e os palácios de vidro, onde se padecia no tédio perfumado de quem nunca precisou caçar o que comer.
—De jeito nenhum — entre dentes —Só por cima do meu cadáver — repulsiva, a glabela enrugou-se. Tal seda era a luxuriosa presença que Raia não deveria abrigar; enfiou no bolso, sentindo queimar a virilha como pecado.
O aroma reafirmou a desconfiança — de que todas as mulheres fossem prostitutas em potencial. Do topo da montanha, o vento cortante trouxe gemidos femininos, que rasgaram os ouvidos dele, atropelando seu devaneio. Alarmado, apurou o ouvido, captando a segunda voz; fina.
O som tomou forma lhe roubando a visão; juntou toda saliva e cuspiu no lodo.
—Nojeira.
As pernas o guiaram pela linha enferrujada até o topo do morro. Ele correu pelos ferros do trilho; o baque de seus passos ecoou, até que avistou o túnel de concreto devorado pelo musgo.
Checou a mochila e confirmou estar preparado dessa vez. Vestiu a ante-face e o olhar ardente cintilou:
—Peguei vocês! — um riso orgulhoso acompanhava o sussurro.
Os gemidos rebateram no eco fechado; o radar que o guiara. Dentro do túnel, ele não hesitou; avançando com sede até se esticar, apoiando os calos na plataforma concretada. As íris varreram o nível do piso. Sobre o pedrado lixeiro, o jovem casal se contorcia; profanando a ferrovia com impulsos carnais.
Luxúria
O fulgor filtrado — através do teto caído — revelou o movimento sujo; celebração da carne que formigou a nuca de Bango.
O impulsivo gargalhar foi abafado pelo linho das luvas. Puxou a manga e verificou o relógio: dez para as quatro. A terceira noite sem sono, e o cansaço o apressou; tudo terminaria:
—Antes do amanhecer — limitou.
As trepadeiras encobriam as rachaduras no paredão como cipós; onde ele se agarrou e subiu. Arrastando-se até a pilastra detrás da lixeira. Capturou o rebolado frenético, contendo a respiração e apertou a marreta.
A passos macios, deixou o metal do mace raspar a alvenaria. O sufocante ranger decepou o prazer. O silêncio que se seguiu, guardara os jovens petrificados na sombra de Bango sob o feixe lunar.
Aspirou com a pressa do amanhecer, e esvaziando-se de hesitação, Bango avançou; o olhar enrijeceu entregue ao abismo.
—Surpresa!
O coral de pânico lhe foi melodia para os ouvidos. O casal, com espasmos inúteis, mendigava pela devorada dignidade. A garota lutou com o short; os seios saltavam dos braços, e o rapaz — medíocre vulto — tentava usar o escudo de camisa para a vergonha.
O instinto defensor atropelou o embaraço; desistindo da roupa, o rapaz se impôs entre o agressor e a vítima; a nudez tornou sua fúria deliciosamente previsível. Bango como manequim; não piscou. A noite pesava quando o rapaz explodiu:
—Qual é o seu problema?! — o desafino.
Bango o detalhou: jovem louro, castigado pelo sol. A flácida fisionomia lhe provocou o asco; lábios úmidos e protuberantes abriam-se em busca de ar como peixe. Sem intimidar-se pela histeria, avançou em tom teatral; erguendo a marreta.
O garoto cambaleou e com desleixo tentou esconder a namorada.
—É melhor ir embora! ou vou acabar contigo, seu imbecil! — a ameaça nasceu feroz, morrendo fina; traída pelo tremor. O hálito azedo se misturava ao suor que pingou do abatido nariz.
—Não quero você — sentenciou e, avançando, Bango desferiu o golpe de abate, mas a presa esquivou e o metal atingiu a coxa da garota. O grito estridente a reduziu à criança aterrorizada que soluça nos escombros da existência.
O traidor golpeou o ventre do carrasco, lhe roubando o ar. Enlaçou a cintura da garota — fingindo o amparo que a pressa desmentiu — e carregou o rastro de agonia pelo túnel.
Bango captou — acocorado — a marreta deslizar; raspando até o limite do vão. Recuperado fôlego, ele contraiu o joelho, disparando. A marreta brilhava, chamando o dono — e resgata-la foi o alívio. Em saltos surdos, perseguiu as presas.
Romperam-se laços e a prioridade do rapaz mudou: largou a namorada como fardo na ferrovia; o músculo dela não suportou o impacto e o tornozelo — em falso — cedeu; expondo a fratura. Tentou gritar, mas o choro se perdeu no labirinto da dor.
Os violentos braços esticaram-se, mas o garoto desviou e num espasmo, arrancou a máscara de lã verde, revelando a face de Bango. Seu sorriso molhado escorria nos cantos do bigode; a face — condenada de excitação — luziu lágrimas. O garoto berrou descontrolado e disparou, mergulhando na neblina da saída.
Sozinha
—Mais diversão! — entoou, a voz histérica.
—Agora... — arrastando o passo —Estamos a sós, amor. Não fingimos mais. — acarinhou a voz.
Rastejando até a saída, angustiada com o homem que habitara seu corpo — e que a largou para morrer — muda — a garota berrou.
—O amor… — incrédulo, Bango capturou o tremor na respiração; o pavor, era um espetáculo de fragilidade vital.
A garota, se entregando ao fim; liberou a reserva instintiva. A coragem anestesiou sua dor e ela engatinhou, ganhando distância; a brita furava suas palmas e joelhos.
Estático no trilho, cativou-se pela persistência da condenada criatura. Pagaria para ver até onde ela iria aguentar. Aguardou que a escuridão a engolisse, não havia fuga. Fisgadas selaram o destino dela; não suportando o latejar, rolou para o conforto do gradeado depósito de lixo.
Ao trazer a perna para dentro, o osso chocou-se na grade e seu grito ganhou fôlego. Bango sorriu e sorrateiro, ajoelhou diante dela; o vulto trêmulo entre os detritos.
—Sem o verniz — Bango refletiu —O amor é assim, tão mentiroso quanto seus donos.
Divagando: desejou Moça como espectadora da horrorosa perfeição. A ideia induziu-lhe a euforia necessária para concluir a gargalhada; dando lugar à maldição.
Cessado pela urgência e com energia predatória agarrou as grades; os olhos — faiscantes — devoraram-na. Deixou cair a marreta. De o olho frestado, transbordava uma elétrica curiosidade.
—Pai, perdoa-lhes... — a voz rastejou —Pois não sabem o que fazem — em devoção.
Prendendo a respiração, a garota se rendeu à gravidade; camuflada no medo.
—Oi! — cantarolou Bango. Escancarou a cela e arrancou-a pelo pescoço. Ela lutou contra a forca; arranhando os ombros dele. Irritado, ele chutou-lhe a dor na canela — reflexo puro; o choque a fez amolecer.
Bango — saboreou o aperto — apagando o lume dela. O corpo inerte escorregou de suas mãos num estampido seco.
Ovelha negra
Sentou-se — ofegante — ao lado dela e descansou no aveludado musgo. Abraçado com a euforia, aprofundou-se no instante, ávido pela eternidade. Mas já clareava-se o amanhã.
Ele vasculhou a nudez por utilidade. E o volume na bota dela denunciou um achado; esticou os dedos, averiguando a carteira de identidade; Eva Nilton.
—Nome legal o seu… dezenove anos… — lia, batendo a poeira da calça —De Módronos, em Lixía?! Logo vi…
O almíscar dela o sugou; a tensão não coube no cárcere do zíper. Obedecendo, desvirou a garota; na dourada face misturavam-se as secreções de sangue, saliva e suor. Pinçou o lábio e desnudando as notáveis presas, lhe conferia a inocência animal.
Bango sondou as sombras — a sós na estação. O sórdido apetite, tomou-lhe as mãos; em busca de alívio. A entrega foi absoluta — não pôde se conter. O ato lhe trouxe o prazer do controle.
Arrancou de Eva o último trapo, expondo a silvestre volúpia. No áspero leito, ele a consumiu voraz. Faminto. E, pela primeira vez, a parafilia venceu o dogma. Ele clamou por redenção divina, mas no auge do espasmo, Raia seguiu muda.
Saciada, a mente operou: não há prazer, só o merecido castigo. Não houve profanação; ele a purificara.
—Fogo consome pecado — impelido a incendiá-la, ancorou o olhar no nada e fez do mantra seu fôlego.
O amanhecer sangrou sobre o desvio; ele sacou o plástico negro e após involucrar Eva, rompeu o silêncio dos pinhais com o atrito do fardo.
O túnel cuspiu Bango para o Centro. As copas deram lugar ao sulfureto e ao pó atijolado. A arcada podre — costelas de concreto moldadas por ataques — vigilava o caminho.
O farfalhar do plástico na brita, omitia-se com tilintar ruidoso vindo das manuais oficinas. Bango desviou do grupo atrasado que, febris, disputavam a estreita passagem entre a fábrica de facas e a tecelagem. Os rostos de fuligem se fundiam: exaustas máquinas.
Passou pela lojinha utilitária; o mostruário exibia ásperas toalhas e esponjas, tecidas à mão. Bango esbanjou sua superioridade. O servidor do Estado, habitante das altas florestas, caminhava como Deus entre os insetos.
Montanha acima, na esquina de casa, Bango estancou. Um vulto, envolto em papelão, era fustigado pela brisa. O tremor do mendigo — um dos que se recusavam a servir — provocou-lhe altiva piedade.
—Pobre coitado — de olhar paternal, arriou o invólucro, lendo a miséria com o desdém do privilégio.
Despiu a negra camurça e a aconchegou no senhor cessando lhe tremor. Tateou o bolso e extraiu a carteira. Fitando as três identidades adulteradas, mantinha-se disfarçado. Lambeu o dedão e contou as notas para deslizar a cédula de cinquenta, como oferenda, debaixo da crosta marrom. Sem esperar agradecimento, deu as costas e retomou o arrasto.
O alívio veio no estalo da fechadura reforçada. Ao entrar, despojou Eva no escuro. Apressado, girou as chaves; os cadeados chumbados ecoaram vereditos. Bania o exterior. O incêndio nos lampiões revelou caos, mas o aço das trancas brilhava. Atrapalhou-se com os coturnos — esbarrando nos móveis — e desabou no circular sofá central.
Bigão, que o recepcionou contente, foi cheirar o saco de lixo.
As paredes pulsavam a pressão do entulho literário; estantes embutidas cuspiam volumes de Santo Agostinho e biografias de Alparróis no assoalho. Bango era grato; acima das amareladas páginas, o rosto do ditador multiplicava-se em molduras.
O sono não veio. Em vez do descanso, um ronco estomacal revelou a origem do calafrio: o corpo cobrava seu tributo. Escorado nas paredes, alcançou a cozinha — nicho estreito que vigiava o sofá.
Vasculhou o frigobar, buscando algo para calar as entranhas, resgatando o caldo claro da noite anterior — onde boiavam os últimos nacos de carne. Sem o esforço de aquecê-lo, deixou o sebo escorregar pela garganta.
Sentado no assento da ilha marmoreada, Bango enaltecia-se. A pequeneza do espaço não o sufocava; confirmava-o como senhor da ordem. Satisfeito, arrancou o traje e deitou-se no acolchoado que lhe tragou o peso.
O despertar
O canto do orelhão o arrancou da inércia. A privada sentinela na calçada — atravessou as paredes de ripa. Bango espremeu o embace da visão diante do relógio no pulso: dez para as quatro.
O pânico mordeu; o pilar de Alparróis, sucumbira ao sono.
Correu para fora, sobressaltado. O suor que colava as mechas no rosto, exalava uma mistura azeda e metálica. Não era cansaço; era o odor do deslize. Alcançou o orelhão no instante em que a linha morreu.
—Não, não, não! — O lamento rouco rompeu a garganta. O tempo correra entre seus sonhos. Metralhou os sete dígitos e aguardou sinal de vida.
—Sora Alameda, não toleramos faltas injustificadas. Justifique-se agora, ou estará suspenso pelas próximas duas semanas — o veredito na voz do receptor.
—Desculpe, Sr. General. Estou em missão a comando de Sr. Leo — Bango tragou o ar, estabilizando a voz —Mil perdões pela falha de comunicação.
—A extensão do tempo de missão deve ser contabilizada para o relatório de remuneração no banco de horas e entregue após a conclusão de qualquer serviço privado.
—Entendido.
Bateu o fone e disparou até o banheiro, mergulhando o nicho ao lado da cozinha. Um mosaico de ladrilhos vermelhos retivera seus pés. Entre o armário e o ralo escancarado no chão, buscou o alívio da água. Na banheira carcomida; a água abafou o mundo. Normalmente, isso esvaziaria lhe a mente, mas nem debaixo d’água teve trégua.
Submergiu, aceitando o imersivo abraço. Em Raia, o calor era punição, e precisava estar límpido para encarar o restante do dia. Abandonou a banheira e assaltou a toalha do varal. Mal enxugando-se; com rastros d’água, marcou o piso até o armário.
Parou.
O ranger da madeira avisou a porta entreaberta.
—Impossível... — o sussurro escapou gélido.
Tateou o cabide vazio. O suéter de lã azul-marinho — última peça tecida pela mãe — sumira. O ódio transvazou as pupilas e Bango correu até o saco de lixo.
Estancou diante da porta. Retalhos negros espalhavam-se pelo chão.
—Bigão!? — o chamado esperou o familiar estalar de unhas no cimento, mas a mudez foi acusatória.
A porta dos fundos bocejava — um erro que ele não cometeria. Apalpou o esconderijo do punhal nas dobras do sofá; nada além da aspereza. A fúria esvaziou-se em pavor.
De pele nua, fez-se de sombra até a cozinha, se esquivando do estalante assoalho. Abriu a gaveta e sacou a faca de serra; manteve o metal colado ao pulso.
A chance
Bango espreitou pelo canto da ilha; o olhar colidiu com o dela. Eva, escondida na estante, vestia o suéter de lã.
Bango projetou-se num estalo. Ela armou o bote.
—Não! — a voz dele a fez estancar. Rendido, ergueu as palmas à altura dos ombros. Os arregalados azuis dela, fixos na cinzenta pele; exposta ao sol envidraçado.
—Não tem onde se esconder — a voz aliviou, professoral —Acredite.
Bango recuou, escondendo uma mão na coxa e acomodado no braço do sofá, a encarou.
—São muitas chaves, Srta. Nilton. — gesticulou, apontando as chaves —E cada segundo perdido, é um que eu ganho pra decidir o que faço com o seu corpo.
Ela ergueu o molho; o tilintar metálico denunciou a enrascada
—Me deixa! — uma súplica falhada, ganhava forma.
Ela não suportaria correr e ele aproveitou a vantagem. Bango suavizou os traços, forçando compaixão.
—Eu posso ajudar, Eva. Mas só se deixar — a voz melíflua.
Escorou-se para levantar. Nas costas, os dedos firmaram a faca presa ao pulso; a serra beliscou a pele num rasgo fino. O sorriso, visceral. O carrasco avançou.
Agarrou — o primeiro capa dura que viu na estante — e o lançou na testa de Bango. O estalo seco antecedeu o baque dele na madeira. Perdeu os sentidos e entre pontilhados, sua visão apagou.
Mas o horror deu lugar à curiosidade.
Eva ofegava e, rodeou o corpo colossal. Focou no sangue que vertia da nuca dele e serpenteava o chão, maculando a página amarelada. O papel sussurrava um último segredo:
— “Isola-te o máximo que quiseres para te tornares mais forte; mesmo que percebas que a solidão é um inferno insuportável, ela é muito melhor do que as múltiplas máscaras dos seres humanos” — Fiódor Dostoiévski.

As letras dançaram na vista cansada de Eva; a mensagem foi o luxo que a agonia tornou ilegível. Abandonou a leitura para sondá-lo.
Um reflexo letal: a lâmina mergulhou na jugular dela. Afundou até o cabo, abortando o grito.
Bango sentiu a vibração da serra romper os tecidos e gemeu de prazer. Repeliu-a com um chute brutal para extrair a lâmina. O sangue jorrou quente, batizando-lhe as feições de escarlate. Sorrindo, ele limpou o rosto nas costas da mão.
Eva agarrou o fluxo, segurando a vida que escapava por entre os dedos. Debateu-se na macabra coreografia de quem se afoga no próprio rubro, encharcando o chão. Ele assistiu de perto, venerando cada espasmo de Eva com o olhar de quem presencia um milagre.
—Consegui… — balbuciou, com o brilho devoto no olhar.
Um último insulto de saliva atingiu o rosto de Eva, fundindo-se ao calor do sangue. Bango permaneceu imóvel, os olhos fixos na cadência da morte. Os últimos espasmos foram o compasso da vida que se esvaiu, infiltrada nas frestas.
O brilho esvaiu-se na quietude, deixando duas órbitas órfãs de essência. O silêncio do casebre foi o hino de Bango. Reinava sobre a existência.
Terno e tomado pelo cansaço, deitou-se junto ao corpo. Enquanto a visão se esvaía, ele saboreou o calor restante no cadáver.
O porão
A frieza o despertou. À sua frente, duas moedas de prata arregaladas. Num frenesi de repulsa, cambaleou e tropeçou no cadáver.
Bango escancarou o porão. O mofo subiu, como se a casa estivesse abrindo a boca. Ele não hesitou.
Agarrou Eva pela garganta e virilha — uma massa inerte. Num arranque brutal, lançou-a ao vazio.
—Adeus — sussurrou.
O silêncio foi rompido pelo estrépito da descida caótica. Um murmúrio ininteligível ecoou, como se estivesse ocupado com a nova chegada. Bango esperou o último som antes de selar o alçapão com o estrondo do ferro.
Estava feito.
—Foi um desprazer te conhecer — sentenciou, a voz carregada de desdém.
A saída
Bango consultou o relógio: seis da tarde. O tempo era o adversário que não admitia trégua. Com ríspida urgência, enfiou-se nos trajes da noite anterior — a armadura de fluido seco raspando — e atravessou a porta.
O orelhão era a sentinela silenciosa da alveada calçada . Bango varreu a vizinhança com o olhar antes de erguer o fone e torturar o fio.
—Leo, sou eu, Sora — Bango apressou-se em dizer, a voz tropeçando a aspereza, como se o mofo tivesse subido à garganta —Preciso de informações sobre um intruso.
—Informações? — o ruído riscou a linha, seguido do clique de isqueiro. Leo tragou antes de continuar —Não sei se posso ajudar com isso.
—São informações valiosas — apelou Bango, apertando o fone contra o ouvido.
—Encontre-me à meia-noite. E traga seu cachorro, Sora.
Bango paralisou. O compromisso das onze latejou sua têmpora.
—Pode ser noutro horário? Tenho algo por volta das onze.
Bango estacou. Moça ficaria para depois. A imagem de Eva ainda era o miasma.
—Fechado — cedeu, incerto —Mas me diga... pra que diabos quer o Bigão?
— Você é negligente, Sora. Ele fugiu ontem e nem se deu conta. Eu o alojei no canil.
—No canil? Por que, senhor? — A voz de Bango subiu, trêmula.
—Eu já dei a ordem. Traga-o de volta. Ficou claro que não tem pulso para isso. — Leo fez uma pausa ruidosa, buscando paciência.
—E por favor, Sora, estou ocupado. Mantenha a postura de homem e obedeça. Você é um bom rapaz. Eu sei disso.
—Entendido, senhor... — cedeu Bango, com a voz murcha.
O bip da linha foi o veredito. Bango não se moveu — o fone ainda colado ao ouvido — num pacto mudo com a floresta. O segredo estava selado.












Bom, não sei como colocar em palavras tamanha agonia que sinto no momento. Fato que, Bango não é um qualquer que apenas mata, mas sim, mata com o intuito de saciar sua fome aparentemente insaciável pelo poder. Isso faz com que ele se sinta vivo, que se sinta maior do que seu próprio corpo, maior do que tudo e todos (até nos seus pequenos atos de "bondade", sua intenção final é alimentar esse Deus interior que ele acredita ser).
Agora um ponto inteligentíssimo, a faca de serra foi a melhor escolha para se criar um cenário aterrorizante desde o início, antes mesmo da faca entrar no pescoço da nossa pequena Eva, que Deus a tenha 🙏.
Não estou a pensar no próximo capítulo pois ainda estou digerindo esse KKKKKKKKKKKKK bora que bora, segunda que vem já estarei preparado.
WHAAATT????? esse cara é definitivamente maluco. E aquilo que ele bebeu? simplesmente nojento. parabéns. apesar de ter uma grande repulsa por esse personagem, eu tenho q admitir que este capítulo ficou excelente! obrigada.