CAPÍTULO 19: OUTRO LADO
Enterrados Em Alabazzo
Onda
—Tem o endereço de uma ilha próxima à sua localização — a conexão falhou — Na... —Prai... — perdeu o contato.
Bango deixou o walkie-talkie cair e caçou o endereço na tela de navegação. Depois de clicar todos os botões que pôde, desistiu.
Quando se acalmou, a localização estava circulada debaixo do seu nariz. “Lixía.” — ele sussurrou.
Por um momento, teve a impressão de que enfartaria ali. Segurou o peito com uma mão, tentando controlar a respiração na outra. O estômago roncou. Ele estremeceu como se levasse um choque.
Foi até a cozinha compacta e se lembrou de casa. Certa vez na torre, ouviu atrás da porta anarquistas conversando sobre os agentes terem demolido sua propriedade com um trator.
Bango fez uma careta ao encontrar marmitas lacradas com fita. Arroz japonês, feijão branco, atum e uma colher plastificada. Mastigou gelado mesmo. Era melhor assim.
Ele caminhou até a proa e sentou para comer diante do mar. Estava calmo, escuro. Uma linha dividia dois tons de azul. A lua já queria ir embora quando ele amassou o isopor com o plástico e lançou na água.
Observou o ponto branco chacoalhar no percurso da maré até sumir no horizonte que revelava agora a sombra de enormes rostos de rocha.
O carrasco apertou os olhos para ver melhor. Pareceu miragem. Ele se levantou e foi até o posto de comando para verificar a localização. Perto demais. Foi até o frigobar e secou a garrafa d’água de uma vez.
Voltou à proa ainda com a garrafa na mão. “Deus é maravilhoso mesmo.“ — sua mente se acalmava.
O Grand Banks reduzia a velocidade deslizando. Bango viu a enseada. As ondas quebravam agressivas, espumando pela areia escura.
Bango entrou e abriu o armário embutido à direita. Se armou com a metralhadora — compacta, curva — presa ao suporte. Ele vestiu o colete que descansava na cadeira de comando e enfiou os ombros na alça da arma, a ajustando nas costas — o cano raspou a coluna.
Um peso familiar que o encheu de euforia. A pistola veio logo depois. Encaixou no coldre da cintura. O walkie-talkie foi para a esquerda. Ouviu a antena roçar a cordura.
O choque ardeu de súbito. Ele ignorou, respirando fundo. “Idiotas… — bufou — … vão acabar me matando à toa” — apertou o estômago.
A ilha
Abriu a cabine. O vento açoitou seu rosto. A praia bem ali. Ele puxou o manete e ouviu o murmúrio do iate.
Acima erguiam-se duas estruturas de rosto esculpidas pela erosão.
O vento assobiava dos olhos vazados — narizes quebrados e testas de vegetação davam-nas uma expressão severa.
Bango pulou na água gelada com uma corda na mão. A barba sombreava até a sobrancelha.
O cabelo já ondulava até o queixo novamente. Amanhecia pálido, a pele evidenciava os tons vulcânicos da ilha.
A âncora já havia caído. As ondas batiam altas no casco da embarcação. A amarrou no mourão e memorizou tudo ao redor do lugar. “Lixía.” — pensou.
O mar era azul-esverdeado ali.
Bango atravessou a faixa de areia e se arrastou até a elevação de pedra que surgiu matagal adentro. Coqueiros inclinavam-se, formando um corredor que filtrava a luz do sol. O cheiro de maresia se misturou às frutas apodrecidas.
Quanto mais avançava, mais percebia que aquela cidade crescia junto da floresta. As casas se conectavam à raízes e paredões. Algumas encontravam-se suspensas no topo das árvores, outras nas cavernas e morros.
Cipós se emaranhavam nos telhados. Jardins ocupavam os espaços livres. Não havia fumaça no céu que não cheirasse a pão caseiro. Nem pó de concreto.
A ilha parecia viva. Os pássaros não tinham medo de gente. Pontes ligavam plataformas entre caules centenários. O som dominante era o da água corrente, que jorrava por canais de irrigação.
Depois de minutos caminhando, Bango encontrou uma placa corroída pela ferrugem. A madeira balançava na brisa.
“TABERNA DO MIRANTE”
A seta indicava uma trilha. Ele avaliou o meio do mato por uns segundos. E então seguiu. Ninguém o parou. As pessoas se vestiam como velhos camponeses.
No fim do caminho de folhas, ele empurrou a porta de madeira. A Taverna era baixa e de pedra escura. O telhado era de palha. Lampiões pendurados em vigas iluminavam pouco. As largas janelas compensavam.
Precisou baixar a cabeça para entrar. Peixe defumado e cerveja lhe ocuparam as narinas. Bango sentou no último banco livre, de costas para a quina. O barista careca – braços tatuados, barba trançada – aproximou-se.
O homem serviu a cumbuca de coco; a espuma transbordou o balcão.
—Bem-vindo a Lixía, meu caro. Conta da casa. — fez uma breve reverência. Mas seu sorriso não era de boas-vindas.
Bango agradeceu e tomou um gole por educação. A fermentação o atingiu de imediato.
Silêncio. Algumas conversas morreram no momento em que chegou e não retornaram.
Seus olhos percorreram o salão. Homens de cavanhaque jogavam cartas sob barris de mesa. Uma mulher de cabelos grisalhos afiou um facão, após matar uma dose de rum. Dois pescadores discutiam sobre o reparo duma rede.
Nem ricos, nem miseráveis. Aquilo o incomodou. Em Raia, era mais fácil identificar quem mandava e quem obedecia.
As roupas eram simples. Estavam limpas. Os dentes eram saudáveis, apesar de amarelados pelo cigarro. As peles eram douradas.
Bango observou uma mesa próxima.
Um sujeito barbudo bebia sozinho. A barba chegava ao peito. Unhas limpas.
Outro homem tinha o rosto coberto de cicatrizes, mas parecia saudável. Não fazia sentido. Onde estavam os ratos? Os derrotados?
Uma sensação oca se instalou nas costelas. Ele descansou os cotovelos no balcão. As armas pesaram mais ali do que em qualquer outro lugar.
O taberneiro secava a sujeira do balcão, espirrando uma solução. Barba branca, olhos atentos.
—Primeira vez em Lixía? — perguntou.
Antes que Bango respondesse, a estática explodiu do walkie-talkie.
O bar congelou.
—Tá me ouvindo? — a voz feminina o atravessou.
Os pescadores pararam para ouvir. Um rapaz acertou o último dardo no alvo — o rosto de Alparróis colado na parede.
O taberneiro o julgava por cima dos olhos.
—Eu sei onde você tá — continuou o chiado. —Te vi chegar. Pede uma cerveja. Não sai daí.
O coração de Bango ficou lento. Um homem no canto levantou devagar. Outro já cruzava os braços de bigodão infeliz.
O silêncio pesou.
—Donde veio? — questionou o taberneiro com um olhar invasivo.
Bango desligou o aparelho. Todos tinham ouvido.
O taberneiro apoiou os dois braços sobre o balcão.
—O pessoal tá cum medo docê.
Bango percebeu que metade da taberna vigiava suas armas e se espantavam a cada movimento seu. A outra metade fitava o rádio piscando um botão vermelho.
—Ninguém vem préssas banda tão carregado de ferro, não.
—Sou agente do senhor Doliver.
—É isso que preocupa eles.
Bango se arrepiou com a dezena de olhares nele. Pela primeira vez, teve a impressão de estar cercado. Não por soldados. Por pessoas.







Muito obrigado mesmo, caro amigo! Isso é valioso demais
Entrei aqui hoje, só pra te prestigiar mano. Aproveitando essa saga! Valeu.