CAPÍTULO 18: MIRANTE
Enterrados Em Alabazzo
Alto mar
Holp colocou a mão no ombro de Bango:
—Tá tudo bem?
Ele repeliu o toque do doutor:
—Claro. Não se preocupe comigo. — resmungou, espalmando o ombro.
Nenhum dos dois se atreveu a respirar alto enquanto o elevador descia. O carrasco manteve os braços cruzados, os olhos cravados na grade. Holp encostou-se postural na quina.
Ao chegarem no subsolo, o doutor permaneceu absorto no elevador. Após uma breve reverência de general, ele foi engolido pelas grades e o elevador subiu.
A água do mar que refletia o carmim dos ladrilhos estava morna e agitada. Bango se arrastou até a saída do túnel.
Ele avançou pela passagem escura e desaguou no canal. O sol incidia; já sem queimar. Os olhos acostumados à claridade, arregalaram-se.
“O doutorzinho não brinca mesmo em serviço“ — pensou encarando o Grand Banks 42 Heritage com as mãos na cintura. Ele suspirou e foi se aliviar detrás da grande rocha.
Na escada de corda que pendia do bombordo, sentiu os nós escorregadios. Agarrou o degrau e impulsionou o corpo para cima. O pé escorregou uma, duas vezes.
Ele segurou firme, os dedos ardendo. Respirou fundo. O uniforme salgado pesava. Escalou um nó após o outro, de olhos vidrados no topo, até alcançar o convés.
O carrasco caiu de bruços e rastejou para sentar. A água pingava das calças, escorrendo pelas tábuas. “Material até que bom.“ — avaliou.
Bango levantou-se e contemplou o mundo à sua volta. Apenas ele, o mar e a imponente torre. Apertou o corrimão de latão para se equilibrar no balanço do casco e se virou para percorrer o boreste; deixando o carvalho ecoar.
Alcançou a meia-nau e deslizou o peso da porta. A ventania foi silenciada pelo salão chique. Ele inspecionou cada móvel de mogno escuro. Tateava o estofado de couro envelhecido com ternura. O edredom de camurça marrom. Novidade.
Ele deu um passo à frente e envolveu os dedos no leme. O painel acendeu em sequência. Luzes verdes e âmbar despertaram sob o console. Bango piscou para as telas brilhantes.
Tudo cheirava a cera e sal. A cozinha compacta, o sofá de canto, as duas poltronas. Uma casa inteira flutuando sob oceano.
Apesar da queimação no estômago, Bango confortou-se na poltrona de comando e ouviu o próprio batimento por alguns minutos.
Respirou profundamente o salitre e fechou os olhos. O corpo dele amoleceu no conforto do assento. Lá fora, o iate balançava com o canto das gaivotas.
Ele girou a chave.
Houve um silêncio curto, elétrico. O diesel respondeu.
O barco estremecia, profundo e contido. Seus dedos vibraram na direção. Abaixo do piso, pistões trabalhavam. A água em volta da popa se agitou em círculos.
E as horas no mar afundaram.
Às escuras, a linha vermelha na tela de navegação iluminava o rosto de Bango. O Grand Banks avançou imperturbável por horas.
Bango roncava.
O piloto automático assumira o controle há algum tempo e girava o timão por conta própria, corrigindo a rota com estalos.
Afundado no conforto, ele deixou-se guiar pelo som das ondas. Submerso num daqueles sonos raros, onde o mundo deixa de existir.
A estática ruiu nos seus ouvidos:
— …está me ouvindo? Por favor, responda. — chiou a voz.
Bango deu um salto da cadeira, o coração correu à garganta e voltou. Tateando o escuro, ele derrubou as revistas empilhadas. Tentou abrir as pálpebras, mas estavam coladas. Com um dos olhos ardido, procurou o relógio que marcava 23:39.
—Câmbio... Você tá aí? — a voz insistiu do walkie-talkie preso na lateral da cadeira.
Sua frequência cardíaca acelerou ainda mais. Não era uma emergência. Era voz de mulher. Uma que ele reconheceria de qualquer lugar do mundo. A descarga o despertou de corpo inteiro.
Abriu os olhos umedecidos.
—Positivo, câmbio! — respondeu quase gritando.






Li esse trecho como quem entra devagar num lugar que não sabe se é porto ou vertigem.
Fiquei com a sensação de estar sempre um passo atrás do personagem, tentando acompanhar o ritmo dele sem nunca ter certeza se aquilo é ação, memória ou sonho. E isso me prendeu de um jeito estranho, porque não é uma narrativa que explica — ela empurra.
O que mais me marcou foi como o corpo do Bango vai desaparecendo aos poucos dentro do ambiente. Primeiro no elevador, depois no túnel, depois no mar, depois no barco… até ele parecer quase dissolvido dentro da própria máquina que deveria conduzi-lo.
E quando ele finalmente para, quando ele afunda na poltrona, eu senti um tipo de silêncio pesado, desses que não são paz — são suspensão.
O final me acordou junto com ele. Esse “câmbio” não é só um chamado, é uma ruptura. E é curioso como uma única voz consegue desfazer todo o isolamento construído até ali.
Terminei a leitura com a sensação de que o texto não está contando só uma história no mar… está testando até onde uma pessoa aguenta ficar sozinha dentro de si antes de ser puxada de volta por alguém.
Mari 🌹