CAPÍTULO 17: OUSADO
Enterrados Em Alabazzo
Saga I
Bango ficou imóvel e, fixado no espelho de rosto, soprou o arroto choco que prendia na garganta.
O reflexo embaçou, deixando só o âmbar de seus olhos à vista.
Avaliou a cebola dos ombros e apalpou a firmeza das curvaturas que indicavam o início da nova forma.
O tecido do Multicam Black contrastou a pele cinza daquele rosto quadrado e pouco ossudo.
“Viril o suficiente.“ — pensou, sem comemorar desta vez.
Se virou e, numa letargia, sentou-se à tampa do vaso, puxou um dos coturnos com o pé, usando-o para trazer o par até ele.
Sem meias, os encaixou nos pés, apertando o cadarço até marcar seus dedos. Encarou o sangue voltando à palma das mãos; que tremiam. Ele suspirou e, ergueu um corpo mais familiar, abrindo a porta.
Uma vontade de potência lhe coçava atrás da orelha; como uma voz assobiando. O doutor Holptins, Roger, e Adson o aguardavam enfileirados no corredor.
Só enxergou os sapatos de bico fino deles contrastando o traje militar.
Um marrom, um cinza e um vermelho. “Um palhaço completo.“ — Bango analisou Adson de baixo para cima.
E franziu o cenho na mesma hora em que encarou aquele rosto purulento.
—Por acaso eu posso ajudar o merdinha com alguma coisa? — aquela boca de peixe fazia bico ao proferir sílabas.
Bango pôde ver as partículas que mantinham os lábios brilhantes; saírem pela fresta entre os dentes quebrados.
Desviou o olhar para Holptins, que o chamou com um gesto para segui-lo.
E foi guiado sem proferir uma palavra até penúltima sala do corredor.
A porta de inox foi aberta e ele desaguou numa clareira de pó e luz fria. O chão de tatame era marcado pelo sulco de botas. Listras cobriam a arena como cicatrizes.
Cinco baús de alumínio espalhavam-se abertos pelas curvas da sala. De onde boiavam metralhadoras em recortes de espuma.
Um odor de óleo e plástico queimado invadiu as narinas de Bango. Ele coçou o nariz ao recordar-se da guerra e depois os olhos.
Aproximou-se do baú e tateou um dos fuzis. Não via uma dessas há mais de três anos. Aqui em Raia, tudo se resolvia à punho ou com ajuda do machado.
A tinta sangrava da parede em letras cursivas: “SEM DEUS, SEM ESTADO, SEM PATRÃO”.
Abaixo, em vermelho: “LÍXIA VENCEU E SEMPRE VENCERÁ”, “MORTE À LINHAGEM MAGNÓLIA“.
O R de “morte” estava borrado. Bango esfregara o punho sem que ninguém notasse. De repente, ele também empunhava uma das metralhadoras de tinta, assim como todos os agentes da sala.
Apenas Holp se mantinha com a Ruger Mark IV e dava instruções.
Mas o ouvido de Bango só começou a destampar quando o doutor terminou de dizer:
—Agora, vá até lá e me mostra o que sabe fazer com essa arma. — apontando para uma das três cabines de vidro e latão ao fundo da sala.
Saga II
O zumbido dos transformadores incomodava.
Em cada cabine, um monitor exibia o alvo: a impressão do rosto do ditador Alparróis colado ao de três robôs humanoides.
Uma foto colorida: os olhos verdes – vidrados. A boina; o crocodilo. O bigode robusto que Bango tentava imitar, antes de ser obrigado a se barbear por completo.
Ele adentrou a cabine. Sangue falso escorria do buraco na testa de um dos robôs. Estava abafado. Parecia menor por dentro que por fora. Tentou economizar fôlego mesmo assim.
Os alvos próximos foram deixados num tipo de escuridão estratégica. A eletricidade estalou – e um robô piscou o rosto impresso.
A cabine fechou automaticamente. E os humanoides começaram a avançar, emitindo um chiado. Bango apontou para um deles, que travou e atirou balas de borracha.
Desviando de sete balas, se escondeu detrás do estande.
Carregou a arma com os cartuchos do colete e levantou. Mirou em cada rosto e, imaginando Jim; derrubou dois em sequência.
O mais próximo acertou uma bala de borracha no seu olho, o que o fez recuar novamente. Ele respirou fundo, pressionando a pálpebra na mão.
A dor era latejante e já sentia sua córnea inchar. Tinta vermelho neon escorria até o queixo como lágrima.
Ele recarregou de novo e levantou, derrubando o último com um tiro no pescoço; que se estilhaçou num curto-circuito.
Houve apenas uma salva de palmas e as trancas abriram.
—Era bem o que eu esperava. — desdenhou Adson, com um cutucão no olho ferido de Bango.
Ele não suportou. Desferiu um chute no estômago de Adson e o esperou ficar sem ar para descarregar o resto das balas no rosto vermelho.
Ninguém ajudou. Holp assistiu de olhos famintos, uma mão no coldre da cintura. Com os braços cruzados Roger apenas acompanhava à distancia.
Adson quis reagir, jogando os braços em toda direção, enquanto tentava engatinhar. Mas Bango chutou o queixo dele e o assistiu se estatelar de costas.
Se aproximou e lhe pisoteou a cabeça sem parar. Até que o tatame começou a umedecer.
Holp atirou duas vezes nos pés de Bango. E ele parou, vidrado na poça que o aglomerado absorvia. O suor o perolava a testa, pingando com tinta pelo nariz.
O palanque estava iluminado atrás de Holptins e exibia a bandeira de um “A” circulado.
Afastando os coturnos ensanguentados, ele leu a escritura em giz: “P LO FIM DA TER EIRA GUER A MUND AL”.
—Você é bom. — Holp declarou a verdadeira salva de palmas. Os outros em treinamento na sala o acompanharam.
A feição de Bango queimava e os olhos se escondiam na sombra da luz. Um sorriso sério tremia nos lábios.
—Vamos, acabaram as balas! — o doutor apontou para a arma de Bango.
—Fez até melhor do que propus. — disse e, empurrando Adson com a sola do sapato, o virou de barriga para cima.
Bango soltou a arma.
—Tinha que terminar o serviço. — sentenciou à Holp.
Após uma gargalhada, o doutor limpou o lábio e pegou um cigarro.
—Vem comigo. — Holptins deu as costas.
Bango o seguiu. As pegadas criaram uma trilha pegajosa do tatame até o piso de latão. Adson ficou na sala, sendo erguido por Roger.
Saga III
Aquela sala era diferente. Um cômodo composto apenas por duas cadeiras acolchoadas, divididas pelo centro de vidro, de onde um cigarro fumegava na borda do cinzeiro.
Holp fazia anotações no caderninho que Bango recordava. De pernas cruzadas, os óculos mudaram para grinderpunch’’s escuros.
—O que tanto olha em mim? — o doutor o orientou a sentar à frente.
—Nem minha mulher me encara tanto.
Bango sentou.
—Tem mulher? — teve dificuldade para proferir a palavra.
—Você é observador. É até sensível, eu diria.
O estômago do carrasco se contorceu. Ele consertou a postura e limpou a garganta.
—Deve saber muito sobre mim, doutor.
—Isso é sarcasmo? — Holptins descansou o caderninho sob a mesa e voltou a cruzar as pernas.
Os braços pesaram nos apoios da cadeira. Holp deixava a ponta de cada dedo tocar o couro, um por um. Encarava o fundo do olho de Bango.
—Não.
—Você é inteligente, Bango. Sabe disso, não sabe? — o doutor perguntou sem mudar de tom.
O carrasco apenas negou com a cabeça.
—Como não?
—Eu fui criado pra batalha, doutor. Não pra pensar. — o olho esquerdo era um hematoma.
—Bango. — Holp coçou o queixo e pegou o cigarro quase apagando. Após um trago:
—Você é único. Pode fazer coisas inimagináveis.
—Crueldade? Sim, posso.
—Isso é uma escolha sua. O partido não te define. Deus não te define.
Bango negou com a cabeça.
—Podemos te dar toda a liberdade que você nunca teve. Pra vingar tua mãe. Sabemos quem a matou e o porquê.
—Porque eu iria querer vingar uma prostituta? — Bango cutucava uma das unhas encravadas.
—Ela te amava. Fez de tudo pra te manter vivo, pra garantir pelo menos um cuidador endinheirado pra você, por mais doente que fosse.
—Ele não é doente. — defendeu Bango.
—E você, Bango?
—Eu o quê?
—Se considera doente?
—Como poderia? Você me curou doutor.
Holp ficava fascinado a cada piscadela de Bango. Era sensual e intuitivo, mas pesado como um mau presságio.
—Será que eu deveria confiar em você?
—Claro que pode. — ele sorriu.
O doutor tirou uma carteira diferente do bolso e abriu, tirando um charuto em seda marrom. Bango aliviou a feição e o encarou como quem pede.
—Né você que não fuma? — perguntou Holptins.
—Não fumo tabaco.
—Encontramos 17 pés disso aqui na sua casa.
Bango engoliu a saliva entalada.
—Roubaram também?
—Também.
—Porque vocês gostam de roubar? — Bango pegou o charuto do doutor e tragou lentamente, como quem lembra de um tempo bom que não volta.
—Porque você mata?
O carrasco se calou, mas a fúria já não queimava os olhos marejados.
—Podemos te ensinar a ser outra coisa, Bango. Eu sei que você quer isso.
—Não dá pra ser outra coisa. Vocês também me usam pra matar. — Bango afirmou, passando a brasa.
—Eles são assassinos, Bango. Genocidas. Todos eles. Estão mamando às nossas custas. Às custas do nosso trabalho. Ninguém pode fazer nada. Você, Senhor. Você, que acredita em Deus.
Bango entrelaçou os dedos.
—Acha que o que esses ditadores fizeram com você e com a sociedade seria aprovado pelo seu cristo? O cristo que eles mesmos te ensinaram que gosta de dinheiro?
Uma memória sobrevoou a sala junto com o espiral de fumaça. A voz de Lídia era doce enquanto recitava: “E outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus.“
—Bango?
Ele retornou da memória, menos convicto.
—Pode falar.
—Eu não posso dizer tanto. Sua jornada irá te mostrar. Melhor é ver com os próprios olhos.
O doutor levantou e deu a carteira de cigarros especiais a Bango, que se levantou para pegar.
—Acho que isso é seu. Quando quiser, é só me pedir.
Bango fez que sim com a cabeça.
—Tem um barco esperando lá no subsolo. Coloquei instruções por toda parte, você vai se virar.
—GPS? — Bango perguntou.
—Isso. Tem um Walk-Talk pra você e outras coisas também.
—Roupas?
—Fardas e novos itens pessoais. Não precisa se preocupar com nada básico. Só quero que gaste seu tempo lendo as coisas que deixei pra você. — disse Holptins, guiando Bango até o elevador.
—Ah, e temos um sistema de eletrochoque que instalamos no seu estômago enquanto dormia, então, eu gostaria muito que não nos obrigasse a usar. Vai ser bom pra nossa amizade.
Bango pôs a mão no estômago que borbulhou.







Acho muito bacana como você descreve. Nos leva para uma imagem, um cenário vivo, com grande qualidade de som e imagem.
Luta braba na escrita?
Obrigado por persistir.