CAPÍTULO 16: MANEJO
Enterrados em Alabazzo: esta obra contém temas adultos, incluindo cenas de violência, linguagem explícita e conteúdo sexual. Recomendado apenas para leitores maiores de 18 anos.
Parquímetro
—Sabe dirigir? — Jin o analisou de cima a baixo e espremeu os olhos.
—É só me ensinar o caminho.
—Tenho GPS. — Jin apertou a chave na mão de Bango e caiu de joelho na grama.
Bango o sustentou pela cintura depois de destravar o carro e suspendeu o fardo até o banco do passageiro.
—GP o quê? — Bango franziu a testa enquanto esticava o cinto nele.
Após o clique, ele bateu a porta e deu a volta para sentar no banco do motorista. O estofado de couro negro afundou; o corpo lembrou do encaixe, mas estranhou a altura do veículo.
Girou a chave na ignição e apreciou o motor vibrar. “Velhos tempos“ — Bango confortou-se no assento.
Onde costumavam ficar os antigos rádios, uma tela acendeu, revelando o mapa detalhado de Raia em cores vibrantes. Ficou incomodado e sacudiu a cabeça como se acordasse de um sonho.
Engatou a marcha e o carro arrancou trilha adentro. As árvores lá fora viraram borrões conforme ele quebrava a mata com as rodas salpicando barro.
A têmpora de Jin batia no vidro fumê apenas o suficiente para despertá-lo vez ou outra. No retrovisor — que refletiu a cipoada da folhagem — Bango viu suas íris ferverem.
Seguiu a orientação do mapa até a torre, sem pestanejar. Assim que Bango se aproximou da antiga rocha, notou uma cratera ainda maior que da última vez. Agora até um caminhão de carga passaria pela garganta da caverna.
Ao atravessar a SUV, dois homens de paletó preto e boina militar se aproximaram. O rapaz carrancudo de óculos escuro estendeu a mão, solicitando as chaves.
Bango o cumprimentou com a cabeça e o ogro retribuiu antes de escancarar a porta para carregar Jin no colo; as pontas do moccasin criaram uma trincheira na areia até que sumissem escadaria adentro.
O outro homem — corpulento e moreno — arrastou Bango para fora sem aviso e tomou o volante, dirigindo ao fundo da torre com as portas entreabertas.
Hipocrisia
Bango ficou sozinho ali de cara para o maldito farol.
A câmera em estilhaços faiscava pontualmente. À esquerda, o mesmo oceano, mas ali era sujo. Focou nos arbustos, depois nas rochas gastas.
Detrás dos coqueiros retorcidos, reparou um cano 100mm despejando uma gorda densa diretamente no mar.
Bango sentiu um queimor no ouvido e virou-se para a entrada da torre. A silhueta de um sorriso surgiu no portão. Um beiço familiar.
O asco dominou Bango instantaneamente. Com a mão fina e seus dedos longos; o rapaz o convidou num gesto e desapareceu.
O peito de Bango apertou e ele, de repente, teve a impressão de que estava tudo acabado. Massageou a própria axila e fechou o portão ao passar. O mesmo cheiro de mofo.
Ele perseguiu o rastro do rapaz. Teve o pressentimento da primeira vez em que respirou o salitre dali.
O alerta acendeu quando ele chegou ao topo. A falta das máquinas e toda a papelada que ocupava o lugar o acometeu.
O prédio sem móvel algum. Sobraram a estrutura antiga e alguns homens de jaleco carmim que iam e viam, retirando quadros contemporâneos que mais pareciam pintados por uma criança.
O cal guardava a marca azulada das molduras — ao lado da pilha de entulhos e fiação. Um dos homens enjalecados foi até Bango e estendeu a mão para cumprimentá-lo.
—Olá, sou Roger. Tá perdido?
Bango hesitou por alguns segundos encarando a ruga presa entre as sobrancelhas do homem — que já aparentava seus 40 e poucos anos, de barba por fazer e pele negra — mas apertou a mão dele depressa.
—Na verdade, sim. Onde acontecem os treinamentos? — perguntou Bango, limpando a mão nos bolsos de trás, sem que o homem visse.
O entusiasmo foi súbito.
—Ah, claro! Por aqui, meu caro. — ofereceu o caminho para que Bango passasse na frente.
Encaminharam-se até as grades do elevador, e desceram à penúltima sala — acima do aquário vermelho no subsolo.
Adentraram a brancura do corredor. Mas o homem parou. Virou-se para encarar o fundo dos olhos de Bango como se quisesse dizer algo. Bango pendeu a cabeça para o ombro. “O quê?” — pensou.
Roger cambaleou e correu para o fim do corredor, sumindo num dos três cômodos trancados por reconhecimento facial.
Bango se apressou, mas uma bala acertou seu abdômen em cheio. A dor foi fina como lampejo e ele despencou, pressionando as mãos no local de impacto.
O tiro ofereceu alívio rápido demais. Suas mãos; tingidas de vermelho neon. Sua testa pulsava.
Quando olhou para frente, o rapaz beiçudo gargalhava dele, enquanto Holptins o analisava postural — vestidos militarmente, empunhando pistolas de tinta — ocupavam duas cadeira de cinema.
As risadas pesaram mais que o hematoma latejando a costela. Bango levantou-se rapidamente, espalmando o pó branco do macacão. O rosto ruborizado não o ajudou.
Holp repousou a mão no ombro do rapaz — que já emendava o riso à histeria — para que se acalmasse.
Grilhão
O doutor rasgou o selo do maço de Gudang e aproximou-se de Bango, bateu a carteira no indicador e lhe ofereceu o cigarro que saltou.
—Não fumo. — Bango bloqueou com a mão.
O magricelo surgiu de supetão e tomou o cigarro, o enfiando na boca de Bango. Ele cuspiu.
Então, o rapaz puxou o cassetete da cintura e deu uma paulada tão forte na cabeça de Bango que ele ficou tonteado, se apoiando na parede. A pulsação na moleira só aumentou.
Holp ficou apreensivo e cessou o descontrole do rapaz, quando o agarrou pela nuca e o lançou na cadeira.
—É ótimo te rever. Há! — gritou o menino, as pupilas dentro do avelã emitiam um tremor histérico.
O hálito do rapaz exalava, lembrando Bango da noite no túnel. Mas agora era odor de alho e cerveja fresca.
—Porco! — o garoto gritou novamente e escarrou no chão.
O doutor Holptins ordenou que se calasse apenas com os olhos. O rapaz que mais parecia uma tábua, era tão alienado que Bango lhe deu uns 14 anos.
As bochechas vermelhas como se estivesse de blush o conferiam a infestação da acne. Não possuía um pelo sequer. Ele desembrulhou um chiclete de menta, cruzou os braços e mascou ruidosamente.
—Desculpe pelo Adson. Ele não é sempre assim. — o doutor tentou sorrir.
Bango torceu o nariz e escorregou parede abaixo para sentar no chão.
Holp buscou um uniforme igual ao que vestia — no único armário de arquivo do lugar, que só acomodava papéis amassados e poeira pálida — e o entregou a Bango.
—Banheiro; no primeiro vão à direita. — fez sinal com a mão para Bango obedecer.
Ele não reagiu de primeira, ficou ali, reconhecendo o tecido rip stop da farda tática repousada sob os joelhos. A armadura pareceu pesada para quem ainda redescobria o próprio corpo.






