CAPÍTULO 14: CONVOCADO
Enterrados em Alabazzo
O mar
Gaivotas sobrevoavam Glenda — que boiava no mar. Bango acenava da praia sincronizado com o Dr. Holp.
—Glenda!! — os dois ecoaram grave.
Holp segurava o chapéu redondo que tremia com a força da brisa. Glenda balançava conforme a onda engrossava.
—Vamos. Ela virá logo. — o Dr. com uma mão no chapéu e a outra fechando o sobretudo marrom, correu para dentro da cabana.
Bango ficou ali com os pés na areia; a assistindo boiar. Da porta, o doutor gritou novamente:
—Bango, venha! — a voz sobreposta à maré.
As ondas preencheram o peito de Bango antes que desse as costas. Os pés dele afundavam-se nas dunas enquanto arrastava o peso de um corpo em construção.
Ao adentrar, sentou-se com o Dr. Holp numa das duas poltronas.
—O que houve com ela? — o doutor enrugou a testa.
—Me confessei por cartas.
Holp tirou os óculos, um lenço do bolso e limpou a lente. Após enxugar os castanhos miúdos, os reajustou no rosto, guardando o tecido.
—Onde estão as cartas? — enrolou a ponta branca do bigode.
Bango apontou para as miçangas que levavam ao quarto de Glenda. Pôde-se ver os papéis em frangalhos. O doutor tirou o sobretudo e o estendeu no encosto ao levantar. A regata branca enfiada no cinza social, suspensa pela fivela dourada o conferiam um ar jovial.
“É tão feio quando um velho tenta parecer novo…” Bango coçava o queixo, de pernas cruzadas e coluna curva. Assistiu Holp acocorar-se com dificuldade sobre os recortes e se debruçar no encaixe das letras.
A porta se escancara e Glenda transborda água do vestido pelo piso até o banheiro. O rosto impassível. “É devastador como a dor é capaz de hipnotizar alguém.“ Acompanhou ela até deslizar pelo banheiro e o vapor condensar.
Ficou ali encarando os móveis empoeirados. As mãos manchadas de cicatrizes repousavam nos braços da poltrona.
O reflexo o encarou na direita, pelo espelho com formato de lua. As chagas se retorceram. Era o outro que lhe deformava o sorriso. Esquivou-se, ofegando.
O doutor juntou todos os pedacinhos de papel e enfiou na maleta prateada que descansava ao lado da poltrona. Voltando para sentar-se novamente.
—Onde estão os restos? — resgatou fôlego antes de prosseguir —Gostaríamos que ela tivesse direito à um funeral. Não é nada pessoal.
O olhar de Bango encheu de lágrimas quando lembrou-se do corpo fatiado como presunto.
—No porão.
—Não encontramos nada lá — o Dr. consertou a postura.
—Os sacos estão enterrados.
Protocolo
Holp suspirou de alívio e puxou uma carteira de cigarro acanelado. Acendeu um no bico e jogou a carteira na mesa de centro. Brincou com o maçarico dourado que esbanjava um tigre em gravura. Abria e fechava encarando a parede atrás de Bango.
—Bem. Obrigado, Bango. Estou feliz que tenhamos avançado tanto.
Bango arregalou os olhos. —O que acontece agora?
—Com você? — o velho cruzou os braços, esticando as pernas.
Bango afirmou com a cabeça.
—Precisamos de você, apesar de tudo isso.
O doutor não deixou transpassar um fiapo ansioso pela voz ou postura.
—Achei que eu fosse só um verme.
—Você é um verme.
Contiveram-se no silêncio da sala. Holp observava Bango pintado à óleo.
—Mas não é só isso.
Num clique duplo, as travas se soltaram, e o doutor extraiu uma câmera portátil. Apoiou o elástico na palma e capturou os traços de Glenda sob tela.
O clarão do flash cortou a sala. Mas um chiado interrompeu a sessão de fotos. Holp congelou.
Bango; estreitando os olhos, assistiu a antena arranhar na cintura fina enquanto o doutor sacava o walkie-talkie.
Holp pressionou o rádio no queixo, sufocando a estática na mão. Murmurou uma confirmação e cortou a linha, dando lugar ao silêncio. Ele recolheu os itens, deslizando para os nichos. Fechou a maleta e o estalo das travas selou o fim daquela conversa.
—Você viajará terça-feira às três da manhã. Informaremos mais adiante sobre a missão.
Bango sobressaltou de pé, todo rígido.
—O quê?!
O doutor olhou por cima do óculos. Um cheiro de lavanda acompanhou a chegada de Glenda na sala. Ela se soltou no sofá. Apoiou o queixo no punho, fixa no vazio entre as duas poltronas ocupadas. Um suspiro escapou.
Holp e Bango se entreolharam.
—Se alimente direito e faça os exercícios que recomendamos.
O doutor vestiu o sobretudo e, direcionando-se à porta, disse:
—E por favor. Quer faça isso ou não, a consequência será toda sua. Se tiver fraco, morrerá no primeiro dia de Alabazzo.
A porta bateu.
“A sós.” A mente de Bango recordou ao inalar o floral.








muito triste ver Glenda assim, parece q as cartas sugaram sua alma