CAPÍTULO 13: DISTOPIA
Enterrados em Alabazzo
Quintal
Glenda soprou o franjão; buscava uma resposta oceânica.
—Hein? — Bango a resgatou da divagação numa virada abrupta.
—Matou mesmo aquela menina? — ela aquecia os braços eriçados com as mãos.
O vinho refletiu no vidro. Ele ergueu a garrafa sugando até a metade. Ofegante, estalou o beiço rosado. —Que menina?
Descansou a garrafa na grama e deitou no divã, entrelaçando os dedos sob a costela. Glenda respirava fundo, contendo a euforia que lhe subia o peito.
—Você sabe. Ninguém consegue te fazer falar, mas... Mas Bango, era uma… Pessoa!
O Sr. Alameda encarava os olhos dela como duas moedas de prata, enquanto as baratas escorriam da argola rosa. Bango girou o pescoço e golfou roxo. Limpava a boca com a barra da regata quando a fitou de novo.
Glenda correu; trouxe um copo d’água e o ofereceu. Ele bebeu, mas batizou o vaso das espadas-de-são-jorge com o resto.
—Eu sei que é difícil pra você, só que... — a voz dela murchava.
No assento, ela recuperava o fôlego. Após alguns goles, recostou-se, focando no som do mar.
—Desculpa — ele arranhou. —Preciso fazer isso. Eu sei.
As palavras fluíam junto à massagem que ele iniciou no pé dela. Os olhos marejados de Glenda o vidraram. Tentava relaxar as pernas sob o toque dele.
—Sabe como é ter uma família? — ela indagou.
Bango virou o resto da garrafa, lançando-a para pingar na grama. O estômago borbulhava, mas ele arrotou o choco, se aliviando.
Tirando um crachá de entre os seios, ela o entregou ainda morno: “Glenda Nilton”. O plástico lhe queimou os dedos.
Bango estancou de olhos arregalados. Entre a silhueta de lã negra e o cartão caído, o vagão escuro o atingiu. Eva de bruços. O roçar na pele dormente. O odor selvagem. Os azuis do globo ocular sendo expulsos pelo inchaço. O piche adocicado enraizando-se nas narinas.
Id
Ele recuperou e devolveu o crachá. Quando a mão trêmula buscou a dele, evitou, unindo as palmas entre os joelhos.
—Vamos pra dentro? Tá ficando frio aqui... — a voz dela amansava.
Bango concordou e entraram. Glenda pediu que ele descansasse e retirou-se para deitar, mas antes, deixou uma pasta grossa sobre a mesa de centro.
Do sofá, Bango esticava a mão e hesitava, buscando distração em Bigão. Nas ondas de vinho que o acomodavam, naufragou. Devia ter dito. Pelo menos alguma coisa. Frouxo. Desgraçado. Patife.
Após desferir os cascudos na própria cabeça, o rosto úmido se desfez. As pálpebras febris pesaram, mas ao descansar a nuca, a memória exibiu Nana. Eva. A prostituta.
Às duas da manhã, semicerrava a vista em sonhos lúcidos. No último, um esqueleto o perseguia com uma marreta pela estação abandonada. Despertou num sopapo, impedindo o coração de saltar pela garganta.
O som do mar invadia a sala, o acalmando. Não dormiria. Deambulou, degustando a nova firmeza das pernas.
Ao revirar a pasta, fotografias o atingiram. Nelas, arrastava o corpo pelo centro; descartava trapos de vestido na lixeira; o carpete com moscas; ele na rua Beltmor. O rosto dilacerado; o cassetete sujo, os lençóis.
Não reagiu. A casa estatizou, evidenciando um pavio que queimava ao lado da pilha de livros. Bango focou no caderninho de repouso e roubou o lápis do copo. Escreveu pelo resto da noite.
Quarto
No primeiro canto do bem-te-vi, lançou no quarto dela os papéis amassados e capotou no sofá.
Glenda acordou só às nove, despertada pelo chamado no orelhão.
Após o contato, confirmou com Jin o horário para a sessão de Bango com o Dr. Holp. Retornou. Alimentou Bigão na cozinha e passou o café; o aroma subia enquanto ela observava Bango roncar a cada vassourada no assoalho.
Ao sentar na beira da cama para ler, notou os papéis carcomidos no chão.
Juntou-os pela ordem marcada, numerados de um a dez. Forçou a vista para decifrar a letra borrada — um traçado que feria a folha — relatando:
Primeiramente, Glenda,
Não queria que me visse assim. Peço que mantenha compaixão. Apesar de tudo, nunca te desejei mal. Jamais faria isso com alguém como você.
Preciso começar pelo começo, se quero te deixar me ver de uma vez.
Tenho vinte e nove anos e servi ao exército de Alabazzo por quinze anos da minha vida. Isso porque sou filho bastardo de Léo Magnolia. Tudo o que ele fez por mim foi o que me permitiu viver.
Não o culpo pelas minhas mentiras e desgraças pessoais.
Minha mãe, Lídia não era uma mulher respeitável. Não sei bem como falar dela. A perdi aos 13 anos de idade. Léo a conhece melhor, sempre o vi como um pai. Ela dependia do desejo burguês e quando se foi, eu não tinha ninguém.
O pai me deu um lar, comida, estudo… Até um trabalho! Aos 15 anos já me considerava apto para servir; forte e inteligente demais pra a minha idade. No auge da guerra, aos 16, as coisas mudaram de rumo.
Cadáveres, fome, sangue… Me fechei pra isso. Não saberia explicar o que mudou em mim durante as guerras. Léo me recebia sempre de braços abertos, mas o treinamento em casa era dobrado, não havia descanso.
Um homem tão respeitável assim me fazendo o papel de pai. Eu não merecia. Eu e minhas heresias contra o senhor. Que Deus me perdoe. Que você me perdoe.
Léo me ensinou tudo o que eu precisava fazer pra viver no mundo que Alparróis criou. Eu acredito em tudo isso, eu vivi tudo isso. Eu vi o que as mulheres faziam. Mulheres como a minha mãe, mulheres como as da avenida Beltmor.
Talvez ele tenha sido o único sujeito a se submeter amar uma mulher como Lídia. E eu nasci. Essa aberração mesmo que você pode ver com os próprios olhos.
Fiz coisas horríveis, Glenda. Coisas que você não poderia imaginar e com toda a certeza, te pouparei os detalhes. Algo em mim era nojento. Impuro. Apesar de tanto apoio, tanta fé depositada em mim.
Aos 19 cometi alguns crimes e fui julgado grosseiramente. Não fiz metade do que está documentado. Mas olha o meu tamanho, não me encaixava em lugar algum. Não cometi erros animais, Glenda. Foram erros humanos.
Cumpri três anos de prisão domiciliar em Alabazzo antes de aceitar o acordo de Leo e vir pra Raia ajudá-lo a construir mais uma das províncias de sucesso. Ele queria mudar minha vida, me fazer um homem de verdade. Eu, que até então era só uma ferramenta quebrada. Eu só me comunicava com ele e mais ninguém.
Vim morar em Raia por volta de 93. Ganhei um terreno, uma moto, um trabalho na metalúrgica e alguma moral na cidade. Eu sei que é um campo de concentração, mas isso me faz lembrar de um passado ruim. É uma cidade em potencial pra mim e estamos trabalhando nisso.
Levei uma vida estável, estava indo bem até… A recaída. Eu não entendia como funcionava essa parte de mim, por isso perdi o controle. Mas não é sobre isso que escrevo.
Eva Nilton estava no lugar errado e na hora errada.. Com a pessoa errada.
Acabei perdendo a cabeça, a ferindo e me desfazendo dela. O governo não tem nada a ver com isso.
O Jin não iria gostar de saber que ela estava traindo ele com um magricelo horroroso. Mas isso já nem importa depois de tudo que aconteceu. Naquela noite não era eu. Glenda, eu juro.
As coisas saíram do controle, não posso te fazer entender. Eu não consegui parar. Começou com prostitutas, depois eu já nem sei mais o que tava fazendo. Me perdoa. Só agora tenho a chance de pensar sobre isso.
Eu estava responsável pela missão de caçar o Jin, mas desde que te encontrei na praia tudo desmoronou. Você me queria presente. Aqui.
Eu não deveria estar vivo. Deus sabe o quanto desejei não estar. Mas você fez algo em mim brilhar e eu nunca consegui colocar em palavras o que me faz sentir quando está por perto.
Sempre me achei um sem conserto. Odiei as mulheres tanto quanto pude e fiz que me odiassem também. E pra mim, bastava.
Glenda, Moça… Seja lá quem você for ou no que acredita. Eu nunca quis ser diferente. Eu nunca quis mudar, nunca vi necessidade em sair do meu papel servil à plena rebeldia. Você me mostrou o que eu sou. Uma farsa. Me espetando com suas adivinhações e trejeitos cínicos de mulher.
Você é esperta. É única. E eu sei que estraguei tudo, porque no fundo é sempre isso que eu faço com as pessoas que eu amo. Talvez você nunca me perdoe. Talvez nada disso que eu disse te ajude a suportar a dor de perder alguém que te amava.
E não, Glenda. Eu não sei o que é ter uma família. Não sei o que é ser amado sem que precise ser útil. Aprendi a ser soldado e fui isso até você aparecer com aquele vestido dançante. Ali, eu quis ser outra coisa. Eu desejei ser visto. Desejei enxergar alguém.
Se algo em algum lugar no mundo puder me dar uma única chance de te provar que posso ser o contrário disso tudo o que acha que eu sou agora pra merecer teu apego, pra mim estava bom.
Se puder me ensinar a ser outra coisa além da máquina que fui criado pra ser, eu vou ser grato pelo resto da minha vida.
(…)
Glenda leu e releu várias vezes e parou na quinta página, com os olhos cheios. Rasgou os papéis em picadinhos enquanto berrava. Bigão latiu e correu para se enfiar entre as coxas dela.
Arrastando-se até o mar, se jogou nas ondas e lavou o mal-estar no sal. O tom ensolarado dispersava-se pelas dunas de areia que se estendia entre os coqueiros bonsais. Glenda era o único ponto branco boiando na imensidão azul.
© 2026 Italo Amarante. Todos os direitos reservados. O conteúdo deste livro é fruto de criação intelectual. A reprodução parcial é permitida, desde que acompanhada do devido crédito ao autor.
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Eu juro por tudo que meus olhos encheram d'água no fim desse cap.
Estou gostando muito de acompanhar. Sempre uma leitura inesquecível, e isso, para mim, é o maior sucesso. Parabéns, meu caro amigo.