CAPÍTULO 12: UTOPIA
Enterrados em Alabazzo
Noite
Molas de sofá cederam quando Bigão fez um ninho entre as pernas de Bango — cujo ronco nem oscilou. Ao lado dele, Glenda fitava o vapor fluir da xícara, se deleitando na maçã desfeita em caldo. Abandonou a porcelana na ilha e limpou o pincel no avental de brim.
Sem recursos para acrílico, diluía o pigmento num pote de cola, criando o rubro arterial que — à pinceladas — incendiou a tela.
O indicador aliviava os contornos com borra de café; o aceno dela foi um cúmplice artístico. Após contemplar o cavalete, pôs-se a recolher os materiais.
Goteiras pontuaram o piso. Ela contemplava da janela a chuva engrossando. Mas o tilintar da porcelana a tirou do transe.
Correu até a tigela que Bigão atacava. As pulseiras se agitaram no pulso dela ao espantar o cão, que cambaleou na fuga.
Cortinas de pedraria exigiam um mergulho para acessar os quartos e o candeeiro clareava o ocre na tela; que escorria como se não fosse secar.
Mas a luz morria na parede bordô, onde molduras surgiam do escuro, revelando dentes de coiotes e tigres vigiando o ambiente.
Após soprar os pavios para deitar, ela estancou à beira do móvel.
Os dentes de Bango cerravam-se e os globos giravam na pálpebra. Arrepiada, Glenda recuou, sumindo dentre o vibrar das conchas.
Retornando
O grito das gaivotas puxou o primeiro bocejo dele; as garras de Bigão rasparam em resposta. Das frestas, o sol evidenciou a neve de poeira no vão.
Bango apertava a vista, dedilhando rachaduras no estofado, alcançando o pescoço de Bigão para afagá-lo.
—Bom dia, garoto.
Ao latir, Bigão o entupiu de lambidas. E entre as risadas, ele abanou o rabo e desceu. Um odor frutado amarrou Bango onde estava.
—Bom dia, Ban. Go.
A voz de veludo trouxera um sal noturno e seu coração palpitou. Bango engolia o refluxo, cravando as unhas no couro para levantar, mas os pés patinaram. O tombo foi seco.
Bigão saltou e, mastigando o lençol o arrastou para longe. Bango ficou estendido à mercê do clarão. Nu. Glenda leu o pelo emaranhado nos ossos. Ele cobriu a vergonha.
Apesar da curva no canto da boca, ela manteve-se firme, o suspendendo. Ao cobrir a virilha, reparou o rastro de riso nela.
—Desculpa…
—Pelo quê?
—Eu deveria estar morto. Por que não fizeram isso logo? — murmurou do assento.
As palavras travaram o rosto liso, antes dela girar na direção do quarto. Voltou carregando o linho da bermuda e uma regata branca.
—Cadê o macacão?
Bango traçou o joelho num novo levante.
—Por que não descansa? Mal fica de pé, sabe disso. Se veste, vou fazer algo pra a gente comer.
A palma dela pousou no ombro franzino e ele obedeceu. Glenda desfilou até a cozinha e mexeu na lenha até estalos irromperem. O focinho de Bigão atravessou a sala afim de farejar as panelas.
Bango se escorou no cotovelo e, ignorando os pontos na visão, forçou uma postura. Cerrava os cílios buscando uma rigidez familiar e ao abri-los, deixou a ordem mimetizar a memória infantil.
Há tempos não via tanta papelada viciada — torres de papel e fólios se ancoravam na quina. “Minhas coisas…” Acomodou-se, imaginando o estado de seus móveis. Tentou cruzar os braços, mas o atrito da ossada o fez abrir numa careta.
Sauna
Os furos na lã e a nuca carmim o obrigou a se ancorar no presente. Apesar do tufo nas narinas, a salsa lhe alcançou.
Vestiu-se a custo. E ao terminar, o aço da bengala recostada o encarou. Produzira uma lágrima que escorreu, pingando na bermuda. Bango engoliu seco de boca rachada.
—Moça? — tentou o tom habitual.
—Fala! — ela gritava através do vapor.
—Sede.
—Não ouvi!
—Sede! — o alarme rouco.
—Fala mais alto!
Bango respirou fundo, analisando a bengala e, decidiu se arrastar com o apoio até a fumaceira da cozinha.
—Água? — ele tocou na mão colorida.
—Ah!
O pulinho foi seguido do estrondo da tampa no chão. Fitaram-se, antecedendo a crise de risos.
—Desculpa — Bango acariciou o braço dela —Não quis te assustar.
—Não, que isso! — ela balançou o pano de prato de um lado a outro. Pegou um copo e abriu a torneira de barro, entregando-o às mãos compridas.
Bango tomou tudo num gole e pediu mais, até a metade do terceiro copo, quando entre fôlego e goles, devolvendo o vidro, enxugou a boca na palma. Ela leu as mãos dele por um segundo antes de virar-se à louça.
Numa amarga passada, Bango se retirou, atraído pelo reflexo de tinta.
—Quê?…
Mordeu o lábio, deslizando os dedos no relevo. A imagem de um antigo Bango, morto e dilacerado, o encarava com a boca desdentada.
Existência
Naquela noite, o estômago rejeitou o guisado com espasmos, e o sono só vinha quando o rosto estava inchado de molhar o travesseiro. Cinco madrugadas em que o escuro trouxera tremedeira e febre.
Bango foi banhado, servido e tratado pelo Dr. Holp, até alcançar inércia. Mas no primeiro mês dos anos dois mil; Glenda o carregou como defunto para assistir o sol se pôr. E do divã pedrado, divagou por minutos.
—Fico pensando… — reclinou sobre ele.
—Se eu tivesse ficado naquele dia, o que teria feito?…
Uma faísca lhe roubou o semblante morno.
—Me leva para dentro? — Bango disparou.
Num sopapo, Glenda ficou de pé:
—Sim, sim! Só achei que... — se apressou em ajudá-lo.
No batente, ele a dispensou.
—Eu consigo.
Glenda se adiantou até a porta de mãos estendidas.
—Não precisa. — ele insistiu na entrada, firmando a bengala na madeira.
Bango descansou as pernas na poltrona ao entrar e ela trancou tudo antes de ir à cozinha, voltando com duas taças de vinho cheias. Acomodou-se no braço da poltrona e ofereceu uma delas.
—Não bebo — ele bloqueou o cristal.
—Certeza? — a voz mansa e a galáxia na íris se uniram para o fisgar.
Sem jeito, Bango agarrou a taça e deu uma golada, se engasgando. Glenda bebericava rindo por trás do olho.
—O que tem nesse vinho? — a lente cheia.
—Eu.
Bango riu.
—Como assim “Eu“? — as aspas no indicador.
—Não sei, só eu, sabe? Minhas uvas. Meu quintal. Que nem quando eu morava em Lixía…
—Tem quintal?
—Tenho galinhas também.
As bochechas rosadas se assentaram no rosto dele.
—Uma fazendeira na praia? Ran!
Bango virou a taça de uma vez.
—Só melhora.
Glenda engoliu o choro, afundando-se nos olhos de jabuticaba. Deixou-se levar pelo queimor do toque dele na coxa.
—O que foi? — ele deitou a cabeça na perna dela.
—Sei que não sou como antes. Se pudesse voltar no tempo… — ergueu o queixo para ela.
—Teria te beijado com força. — refletiu para o funil dos membros —O que nem me resta…
—Você tá vivo, Bango! — Glenda agitou as pernas.
—Como você tá? Como…
Acolheu a face dele na testa antes de recuar.
—Como foi isso para você? Sei lá… Eu… — o choro escorreu da voz —Quer dizer, olha pra você. Nossa! Não era bem isso, sabe?… Não era isso.
Glenda passou a circular o assento dele.
—Isso o quê? Tá tudo bem, Moça. Volta aqui.
—É Glenda.
—Eu tô bem, Glenda. — ele afirmou.
A mulher descansou a testa na mão e respirou fundo antes de erguer a umidade na expressão grave.
—Quer conhecer meu santuário?
—Santuário? — a voz evoluía.
O arrastou pelo pulso à porta dos fundos, que dava num quintal de arame. Ajustando os lugares para a vista das estrelas.
A rajada de vento exalava o conforto azedo das uvas. Glenda retornou equilibrando duas garrafas de fermentação caseira. Espantou uma das galinhas com o vidro e o entregou a Bango.
—É melhor que na taça, vai por mim.
Os olhares se conectaram arrepiando as costas dele.
—Senta aí, vai.
Glenda obedeceu na hora vidrada nele. O silêncio se estendia, enquanto o joelho de Bango oscilava num tique.
—O que quer saber, exatamente?










Já pode chorar ou tá cedo?