CAPÍTULO 10: AMARRAS
Enterrados em Alabazzo
Barítono
Jin percorreu Bango — perdido na brancura — em busca de respostas. Cruzou as pernas entre o pigarro e a poeira do cinzeiro.
O paciente relaxou a face, nada oferecendo. Não o enxergava. Vultos carmins o vigiavam dos monitores, abafados pela vidraça.
—O que eu te fiz?… — a voz rastejou.
—O que fez? — o fluxo subia dos pelos dourados até a testa, rosando a bochecha. Ao sorrir, reluziu os dentes de prata.
O paciente focou nele, captando a agitação da sobrancelha que o filósofo tentou sufocar.
—Foi sua garota, não foi?
Mordeu o lábio, deixando o interesse do gigante fluir.
—Você luta pelo que ama. Não somos tão diferentes assim…
—O tamanho do teu cinismo me fascina — retrucou Jin.
—Cinismo?
Era o nítido recalque. Doliver limpou a garganta, com a ponta da caneta no caderno.
—Não achei que fosse tão leigo.
—Talvez eu seja, caro Jin Doliver.
—Até nisso você é cínico.
—Pra quê me analisar, então? — ele respingava deboche.
—Não sou apenas cínico e leigo? Porquê se interessa num desprezo desses?
Bango relaxou; a fivela folgada deu espaço aos pulmões. O traseiro estava morto.
Jin baixou a cabeça para rir, deixando os cachos louros enredados lhe ocultarem. Ao erguer-se, o olhar era grave.
—Meu caro amigo... Preciso saber o que fez com o corpo da Srta. Nilton.
A foice do passado o atingiu. O partidário sumiu, abafado pelo mastigar da serra em fibras e nervos. Salpicos bordavam lhe a barba; colando a pálpebra como cera. Sob o brilho do plástico, o relevo disforme era tragado pela terra vermelha que a pá despejou até que desaparecesse.
O tapa foi um tiro no ouvido de Bango. A cabeça chicotou para o lado, estalando o pescoço. O gosto ferroso o despertara.
Tentou tocar o rosto, um instinto inútil. Correias lhe engoliam os pulsos. Cuspiu o sangue.
A visão focou no agressor, que não desviava, enquanto o rastro da palma tornava-se o ponto de contato entre eles.
O expurgo do riso agitou o sangue coalhado na garganta. Cada gargalhar trazia um visco do nariz, jorrando bolhas rubras pelo queixo.
Ignorava o apitar do tímpano e os laranjas faiscaram, saboreando o prazer na boca trêmula do anarquista.
—Fiz o que bem quis, meu caro amigo Doliver.
Bango projetou o escárnio cuspindo nele — a gosma escorreu do supercílio de Doliver, que retirou-se, esturrando a porta na pancada.
Celebrou tonteado ao ver as luzes de fora se apagarem. As pernas tremeram enquanto os gritos saltavam da garganta.
—Desgraçados! — ecoava entre os espasmos, as tiras rangendo.
—Vou matar vocês!
—É melhor acabarem comigo!
—Ou serro cada um de vocês num milhão de pedaços!
Foram longos minutos. O esforço traçava veias do pescoço até a testa. A imundície lhe cobriu no covil.
Depois, o silêncio. Apenas o zumbido dos monitores. Aos poucos, o corpo parou de sacudir. Bango alternava entre a febre e a inércia induzida.
Quando não via saída, a urina lhe aquecia as pernas.
Condição
Uma vez a cada ciclo, os bicos de incêndio espirravam a água ferruginosa que ele, esticando o pescoço, aparava na língua. O choro se desidratou num murmúrio por comida.
Na segunda semana, seu paladar morreu aos poucos. Não havia prato ou mastigação; a bomba de infusão foi injetada, lhe gotejando vida.
Dia após dia, o corpo perdia cadência, murchando até se tornar uma carcaça. O jato de água e sabão devorara os meses.
Apesar de economizar palavras, passou a tolerar o tratamento. Enquanto as estações lá fora avançavam, o ritmo do soro e as perguntas do Dr. Holp mediam o tempo da estadia.
Bango já erguia o braço para a seringa. Alongava-se livremente na cela, cercado por revistas, jornais e artigos anarquistas.
Pelo bom comportamento, passou a ter o direito de bebericar o café queimado, descansar no colchão inflável e se aliviar no buraco do canto. Na Pace Master da torre, pedalava, moendo cevada — seu único relógio.
Doliver aparecia cada vez menos. Quando vinha, trazia leveza dos passos e a postura aberta. Seguro de que o paciente já era um reflexo de suas ideias.
E após uma semana de ausência, a entrada dele tirou o esqueleto da meditação. Invadiu a cela com o reclamar das solas, trazia no ombro a nova pele dele.
Jin Doliver era dez vezes maior agora que o Sr. Alameda equilibrava-se num feixe de ossos.
O revolucionário esbanjou a própria saúde.
—Bom dia, caro amigo — triunfante, arremessou o macacão.
O tecido vermelho atingiu o peito do paciente e, sem que ele agarrasse, escorregou das costelas para se amontoar nas pernas.
—Quanto tempo… Sentimos falta da voz calorosa que tinha.
Jin esperou qualquer faísca odiosa ou grata. Mas ele devolveu um olhar morno.
—Ora, vamos! Até quando teremos um monge trancafiado? — recolhia as xícaras como quem limpa uma gaiola.
Bango permaneceu imóvel.
—Vista-se. Sei o que pode te fazer falar — o político engrossou a voz.








Mordomia da prr
Banban com aparência de uma folha seca